quinta, 19 de julho de 2018
Literatura
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Ana Cristina César e Clarice Lispector no centro das atenções da Flip

André Luiz Maia / 04 de julho de 2016
Foto: Divulgação
O que há de semelhante e o que há de distinto entre as obras de Ana Cristina César e Clarice Lispector, as únicas mulheres homenageadas durante esses 14 anos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)? Mais que isso, na mesa De Clarice a Ana C., a crítica literária brasileira Heloísa Buarque de Hollanda e o escritor e historiador americano Benjamin Moser, mediados pela poeta Alice Sant'Anna, relataram o processo de imersão na obra das duas e cruzaram paralelos possíveis.

Heloísa foi quase que uma "madrasta" de Ana Cristina César, como definiu a própria, auxiliando a poeta no processo de produção de suas próprias obras. "Eu a conheci através da poesia, ao pesquisar material para fazer uma antologia, numa época da ditadura e de muita censura. A sensação que tive foi 'Cruzes, é muito lindo'", relembrou.

Já Benjamin - que recentemente ganhou o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural por seu trabalho de pesquisa e tradução da obra de Clarice para o inglês - caiu quase que por acaso no universo de Clarice. Tentando estudar chinês e desistindo no meio do caminho, escolheu português como mero complemento curricular. Ao ler obras curtas de escritores brasileiros, se deparou com contos de Clarice Lispector. "Não teria ideia de que ia dedicar tanto a minha vida a Clarice. São 12 anos de trabalho ativo", pontuou.

A biografia Clarice, já conta com sete traduções e é comercializada em países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Holanda, Macedônia e Coreia do Sul. A escrita de Lispector, como observa Benjamin, é estranha e isso precisa ser preservado em outras línguas. Até mesmo em português, sua escrita é "para poucos", como ele pontuou. "Tem pessoas que não gostam da Clarice não por uma questão política, mas porque não as tocou. Há pessoas muito letradas que não gostam da Clarice, mas não dá para forçar a barra, tem que vir pelo coração e pelas entranhas. Se não entrar pela barriga, não vale a pena, passe para outra coisa. É uma questão quase espiritual, eu diria", pontua.

Ambos concordam que o sentimento comum de obsessão pela escrita as aproximam. "Lembro de uma frase da Clarice que eu, enquanto escritor, cada vez mais entendo. Ela dizia que a vida está ótima, mas o que a atrapalhava era escrever. A gente acha legal no início, mas fica cada vez mais perigoso. É uma coisa obsessiva", pontua Moser. "Com a Ana, a coisa era bem obsessiva também. Ela escrevia sem parar e revia. No acervo, tem papeis com muitas revisões e anotações com dúvidas e mais dúvidas. Ela não conseguia parar de significar", emenda Heloísa Buarque de Hollanda.

Quanto os caminhos que aparentemente as uniriam, mas que divergem é na questão da intimidade com o leitor. "Eu acho que a Ana quer chegar muito perto, numa conversa muito íntima. Você cai nessa cilada, porque aquela intimidade é retórica mesmo, uma armadilha com o leitor. Ana diz que a literatura é fingimento, mas com bases muito sentidas. A Clarice é mais sincera que a Ana, que encenava o tempo todo essa questão da falsa intimidade", analisa Heloísa, explicando que isso não diminuiria a qualidade de sua escrita. "A Clarice é mais sincera mesmo. Quando você lê textos esboçados dela, ela vai se aprofundando, se desenvolvendo. A sinceridade dela dói muito. Ela morreu com 56 anos e nos textos finais você sentia que ela não aguentava viver mais. Não imagino ela encenando nada, ela era muito consciente de quem ela era", prosseguiu Moser.

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