segunda, 21 de agosto de 2017
Cultura
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Histórias à frente e por trás das câmeras de Daniel Filho

Renato Félix / 09 de agosto de 2015
Foto: Renato Félix
Gramado, RS – O ator, produtor e cineasta Daniel Filho foi homenageado nesse sábado no Festival de Cinema de Gramado com o Troféu Cidade de Gramado. Com uma impressionante ficha e completando 60 anos de carreira (seu primeiro filme é “Colégio de Brotos”, de 1955), Daniel passou pelo Cinema Novo, teve papel fundamental como criador de programas na televisão e emplacou sucessos de bilheteria nos últimos anos (os dois “Se Eu Fosse Você” e “Chico Xavier”).

Mas Daniel também comanda produções menores. Seu filme mais recente é “Sorria! Você Está Sendo Filmado”, de baixo orçamento, com a ação se desenrolando frente a uma webcam e com um plano fixo de 80 minutos. Antes da homenagem no festival, ele conversou com os jornalistas sobre sua carreira e, bem-humorado, contou muitas histórias.

Daniel ator – “Eu pensava: o diretor tá sempre e é ele que escala o ator. Depois vi que se eu não me produzisse, não ia conseguir dirigir direito. Mas o que eu gosto mesmo e sempre sonhei é de terminar minha vida como ator. Porque sempre vão precisar de um velhinho com cara de rico, que sempre comeu três refeições por dia. Mas me escalam muito pouco!”

‘Que Rei Sou Eu?’ (Daniel interpretou o heroico Bergeron na novela de 1989) – “No ‘Que Rei Sou Eu?’, meu personagem era tão bom que eu fiz uma coisa que poucas pessoas comentaram. Eu fazia uma voz de ‘dublagem’, uma voz colocada. Eu chegava algumas vezes a tentar fazer o fora de sincro. Era uma brincadeira com um grande herói”.

Os Cafajestes’ (o filme de 1962 é famoso pela primeira cena de nudez frontal do cinema brasileiro, a de Norma Bengell) – “Eu dirijo o carro naquela cena. Aquilo ali é um jipe com tração nas quatro rodas. Só houve uma vez aquele plano e não era pra ser tão grande. Era pra ter tido uns cortes pra mim gritando e tirando fotografia e o Jece dirigindo e com a calcinha na mão, esses cortes eram para ter entrado no meio desse travelling circular, que demora 3 minutos e dez segundos. Outro detalhe, que a Norma já falou, é que, não sei se por nervoso, a menstruação dela veio um dia antes. E naquela época não existia Tampax, não existia nada disso. Então ela teve que se proteger com algodão. Então, foi muito corajoso. A gente não recebeu um centavo desse filme até hoje. O Jece levou tudo (risos)”.

Take 1 (Daniel é famoso por, nas suas filmagens, o primeiro take da cena já ser o que vale) – “Bergman também gostava do take 1. Mais: John Ford, Clint Eastwood. Logicamente se tem um erro não dá. Mas o ator tem sempre uma emoção a mais que ele dá, que é um frescor. E estou forçando a equipe técnica a estar totalmente atenta. Se for um filme de ação, tudo bem. Mas onde tem ator, take 1”.

‘Cantando na Chuva’ (1952) – “O filme que eu mais gosto é ‘Cantando na Chuva’. Representa uma brincadeira com o cinema, é talvez o filme mais alegre já feito. Funciona pra mim como um Rivotril, um Lexotan, porque quando eu tô tenso, eu ponho ‘Cantando na Chuva’ e vou ficando calmo, vou ficando calmo... Pior de tudo, eu sempre choro no final quando Gene Kelly diz: ‘Segurem ela! É a verdadeira estrela desse filme!’. Mas a minha inspiração vem de todas essas pessoas, de todos os bons e maus atores que povoaram a minha vida nos anos 1940, anos 1950, o cinema italiano desde... desde tudo. Se a gente colocar assim, eu diria que tem aqui o ‘Cantando na Chuva’ e uma coisa chamada ‘Ladrões de Bicicleta’”.

Amor de infância – “A minha primeira paixão no cinema chama-se Margaret O’Brien. Ela tinha a mesma idade que eu, então eu ficava na janela achando que possivelmente, quem sabe ela passa por aqui e me olha? Ela era a menina dos filmes da Metro, desde ‘Meet Me in St. Louis’ (no Brasil, ‘Agora Seremos Felizes’, de 1944), mas o filme que eu lembrava dela era ‘O Fantasma de Canterville’ (1944)”.

Cineastas atuais – “Atualmente devo dizer a você que estou apaixonado por diretores que não são americanos. Um deles, que não consigo dizer o nome, que é o cara de ‘A Separação’ (Ashgar Farhadi), o Nuri Bilge Ceylan e esse, que eu acho um dos melhores diretores atualmente, que é o Michael Haneke. E tem, naturalmente, os dois garotos americanos, Wes Anderson e o Paul Thoman (Anderson)”.

 

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