domingo, 18 de fevereiro de 2018
Cinema
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Entre a ficção e o real: projeto Cinemas em Rede apresenta ‘A vizinhança do tigre’

André Luiz Maia / 12 de Abril de 2016
Foto: Divulgação
No meio do caminho entre o documentário e a ficção, está A Vizinhança do Tigre, segundo trabalho do diretor Affonso Uchoa (Mulher à Tarde), que imerge na vida de cinco adolescentes que residem no bairro Nacional, periferia de Contagem, Minas Gerais. Já em cartaz no Cine Bangüê, a produção ganha hoje uma exibição gratuita, dentro do projeto Cinemas em Rede.

Ao longo de cinco anos, Uchoa se dedicou a filmar o cotidiano desses jovens, de maneira totalmente independente, em um misto de observação e provocação, com o intuito de documentar suas aspirações, sonhos e o contraste com a realidade crua de uma comunidade precarizada.

Logo no início de A Vizinhança do Tigre, somos apresentados a Juninho, Menor, Neguinho, Eldo e Adílson. Embora sejam amigos do diretor, suas realidades são bastante distintas. Enquanto Affonso, que se mudou para o bairro Nacional aos 12 anos, trilhou o caminho da academia e fez faculdade, seus colegas se tornaram serventes de pedreiro, balconistas de loja, traficantes de droga e alguns chegaram a ser presos ou morrerem.

Embora o cotidiano dos cinco seja de muito trabalho e a sombra da criminalidade ronde a vida dos cinco a todo instante, Affonso quis evitar cair em velhos clichês, quando se trata de filmes com essa temática. “Na década passada, em filmes como Cidade de Deus, há uma espetacularização da precariedade e da pobreza. Não queria fazer isso nesse filme. Normalmente, as obras têm uma visão negativista da periferia, sem perceber as potencialidades contidas ali a complexidade de sua constituição”, pontua.

Outro ponto que o incomodava era a forma como as pessoas da periferia eram retratadas na telona. “Os filmes sempre incorriam em representá-los como vítimas do ambiente social hostil e destinados à falência humana, enquanto seres violentos e brutos. Também me senti incomodado com a estrutura usual do cinema, que quase sempre reserva a pessoas como os meus vizinhos funções servis e subalternas, como maquinista ou faxineiro. Pretendi então fazer um filme contra isso tudo”, declara.

Nas palavras do próprio diretor, trata-se de um tipo de filme “coming of age”, expressão em inglês usada para descrever as produções que se centram na transição entre a infância e a vida adulta. Contudo, ao invés de partir do ponto de vista da classe média – habitualmente retratada pelos filmes do gênero –, ele optou por colocar a perspectiva dos jovens de periferia.

Nenhum deles tinha experiência alguma com atuação ou mesmo com cinema. Por isso, os momentos em que os cinco interpretam são trabalhados em cima de acontecimentos de seu cotidiano. “Ao mesmo tempo em que eu fazia uma provocação e os estimulava a reinterpretar alguma coisa, eu buscava ambientar aquela situação de uma maneira orgânica”, explica Uchoa.

Trajetória bem-sucedida. Agora em cartaz, o filme teve êxito em sua caminhada pelos festivais. A Vizinhança do Tigre estreou na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, no qual venceu o Prêmio Itamaraty de Melhor Filme pelo Júri da Crítica e pelo Júri Jovem. A obra recebeu também o prêmio de melhor longa­metragem no 5º Cachoeiradoc (Bahia) e no 18º forumdoc.BH (Minas Gerais).

A Vizinhança do Tigre ganhou ainda o Prêmio da Crítica Abraccine no 2º Olhar de Cinema ­ Festival Internacional de Curitiba/PR e os Prêmios de Melhor Diretor e Melhor Filme pelo Júri Jovem (1º Fronteira ­ Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental, Goiânia/GO).

Fora do Brasil, ele chegou a Portugal (FESTIN ­ Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa ­ Lisboa), Argentina (Festival Internacional Cosquin ­ Córdoba), Equador (Festival EDOC) e Alemanha (Festival de Cinema de Hamburgo).

Sobre o Cinemas em Rede. A exibição gratuita hoje na UFPB é fruto de uma parceria entre a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o Ministério da Cultura (MinC), que conecta cinemas universitários a uma infraestrutura de internet acadêmica. O intuito é ampliar o acesso a conteúdos audiovisuais com a constituição de uma rede experimental, por meio de soluções e aplicações de baixo custo, adaptadas à realidade brasileira.

A RNP e a Secretaria do Audiovisual (SAv/MinC) firmaram uma nova cooperação para dar continuidade e ampliar o projeto. Uma chamada pública deve ser lançada ainda no primeiro semestre de 2016, permitindo que novos cinemas universitários participem.

 

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