segunda, 11 de dezembro de 2017

Roberto Cavalcanti
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Saudade do cangaço

02 de novembro de 2017
O título poderia ser considerado incitação à violência ou à contravenção penal. O espírito, porém, é exatamente o contrário. Quero apenas fazer um comparativo da época do cangaço com o banditismo atual. Nos tempos do cangaço havia violência, é certo, mas circunscrita a territórios e bandos definidos.

Hoje, temos a perda total de controle, quer territorial – atinge todo o País – ou dos criminosos – eles não chegam, estão em toda parte. No cangaço, o objetivo definido era o saque a quem tinha. Os alvos eram fazendeiros, bancos, coletorias e comerciantes. Hoje, atinge todas as camadas da população. O pobre, até de forma mais violenta. Tenho funcionários que foram atacados no ponto de ônibus e agredidos fisicamente por conta de um celular.

Na época de Lampião havia o que poderíamos chamar de “ética da criminalidade”. Uma grávida, por exemplo, era poupada. Hoje, nada é sagrado, nem mesmo as comunidades onde vivem, que viram palcos de confrontos, sempre com vítimas inocentes.

Quando comecei a comparar e a encontrar atenuantes para os bandoleiros do passado diante do desprezo pela vida demonstrado pelos bandidos da atualidade, achei que tinha me perdido na análise. A brutalidade existiu. Poderia o paradoxo romântico de Lampião e Maria Bonita ter afetado o meu julgamento? Decidi consultar o meu amigo de infância e maior especialista do mundo em cangaço, o historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de livros como “Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil”, “Estrelas de Couro: a estética do cangaço”, “Guerra em Guararapes e outros estudos”, “Benjamin Abrahão Entre Anjos e Cangaceiros” e “Tragédia dos blindados – a Revolução de 30 no Recife”.

Tive o privilégio de ouvir sua análise após apresentar minhas dúvidas por telefone. Começou admitindo que há diferenças e apontando que, hoje, a criminalidade urbana propende para a ocultação.

Disse que enquanto o criminoso atual se esconde, o cangaceiro, ao contrário, desenvolveu um traje que o identificava de todas as maneiras – quer pela funcionalidade, quer pelos equipamentos que carregava, quer pela estética que acrescentava ao personalizá-lo.

Tudo isso tornava o cangaceiro absolutamente inconfundível. Era uma declaração de identidade, o seu brado de armas, explica Frederico, destacando que corriam risco de vida por esse orgulho de se identificar. Essa postura, na opinião do historiador, confere ao cangaceiro uma nobreza muito grande quando comparado com o criminoso comum, que prefere as sombras. Essa característica até inspirou composições poéticas em torno de seus feitos, por cordelistas, repentistas, improvisadores e cegos rabequeiros de pátio de feiras, dando aos nomes retumbância e nobreza social. E fechou com um verso do poema “Canto dos cristos da terra ou como nasce um cangaceiro”, do cordelista Paulo Nunes Batista, que confirma o sentido desse artigo: “Acabou-se Lampião,/ Entrou em campo outro time:/ o Sindicato do Crime/ tomou conta do país./ No Nordeste, Norte ou Centro,/ cangaceiro de gravata,/ pra ganhar dinheiro, mata,/ no seu ofício infeliz”. A diferença marcante entre ontem e hoje é que enquanto o cangaceiro desenvolveu uma forma criminal explícita, o que permitia às possíveis vítimas organizarem reação ou fuga, a criminalidade atual procura ser a mais anônima possível, está infiltrada onde nem imaginamos, e ataca de surpresa, de forma covarde e indiscriminada. Meu saudosismo, o do título, é da “nobreza” tão bem destacada por Frederico Pernambucano de Mello, em contraponto a sordidez que só cresce no Brasil.

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