segunda, 21 de maio de 2018

Roberto Cavalcanti
Compartilhar:

Princípios

15 de Março de 2018
Todas as vezes que tenho a oportunidade de interagir com pessoas de diferentes áreas de interesse, busco aprender com elas. Tem sido assim ao longo de toda a minha vida: de menino conversador e perguntador a adulto curioso.

Acho que as experiências pessoais enriquecem e permitem aprimoramento de nossa forma de enxergar o mundo. Funciona como uma espécie de lente especial, que também nos leva a aceitar com naturalidade as divergências e encontrar as convergências.

Hoje, com a experiência que acumulei, já não dou crédito a pessoas que não aceitem o contraditório.

Nessa minha busca por conhecimento, recentemente tive a oportunidade de perguntar a um profissional, ex-estudante nos Estados Unidos, o que foi mais marcante na sua experiência, e o que ele identificava como diferencial fundamental para seu projeto de vida.

Sabedor de que seu período de estudos tinha ocorrido há mais de 10 anos, questionei se foi o domínio do idioma - o inglês - essencial no mundo globalizado de hoje.

Surpreendentemente, recebi como resposta um sonoro “não”. Ele valorava o falar fluentemente o inglês em apenas 10% de sua experiência americana.

Repliquei em seguida: se não foi o idioma, o que considera como importante? De pronto, ele respondeu: “Princípios”.

Falava dos padrões de conduta da sociedade americana. De valores que determinam o comportamento social.

Contou que na escola e na família pela qual foi recebido, aprendeu a valorizar princípios vendo como eram naturais no cotidiano deles e como influenciavam em pequenas coisas e faziam diferença nas grandes.

Ponderou que o grande problema que estamos vivendo no Brasil deve-se, basicamente, a ausência total de princípios. A falta de correção. Na sua visão, enveredamos pelo caminho do descompromisso com o ético, por exemplo.

Trocamos a satisfação de agir com base no que é certo, pela vantagem resultante da esperteza. E o pior: a prática ocorre em casa, na escola e no trabalho. Passou a ser comportamento coletivo.

Suas observações caíram como uma luva, se ajustaram ao que penso. Mas eu precisava dessa “lente” para me ajudar a enxergar as origens e motivações de fatos e consequências que testemunho, seja como empresário ou como cidadão.

Só assim se consegue enxergar que a falta de ética está, na maioria das vezes, associada a uma formação básica deficiente. Que a criança precisa ser não apenas ensinada, mas ter exemplos para admirar e seguir. Dessa forma, os princípios passam a ser parte dela e não uma obrigação.

Se o modelo é negativo, as chances de virar um adulto disfuncional são grandes.

O oportunismo, a malandragem e a dissimulação, hoje, são parte do caminho largo para o sucesso e a riqueza. Mas não é o duradouro. Esse exige reputação, marca de quem tem conhecimento, é honesto e conquistou confiança.

Não é sem razão que muitos “fenômenos” estão sendo desmascarados. Não têm os atributos essenciais. Enganam por um tempo, mas não por todo o tempo, como ensinou Abraham Lincoln.

Podemos até não entender porque algumas pessoas são falsas, traiçoeiras, ingratas e incapazes de apreciar o bem, mas o que temos a fazer é, com disciplina, nos distanciarmos delas.

É tempo de resgatarmos o que pode tirar o Brasil da crise ética: os princípios que inspiram a não furar fila, a recusar o “jeitinho”, a praticar a honestidade, a respeitar a propriedade e, principalmente, os outros seres humanos. Temer um pouco mais a Deus.

Relacionadas