segunda, 19 de fevereiro de 2018

Roberto Cavalcanti
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Nota 10

09 de novembro de 2017
Como fazer com que aqueles que são o futuro do País se debrucem sobre um problema de uma minoria da população, reflitam sobre ele, e até proponham, livres de qualquer visão estereotipada de grupos de pressão, caminhos para superação de preconceitos e integração?

Ao oferecer como tema de redação do Enem 2017 “Desafios para formação educacional de surdos no Brasil”, a equipe responsável pelo exame conseguiu o feito de não apenas levar milhões de jovens a essa reflexão, mas todo o País.

E o corpo técnico do Enem conseguiu isso com adicional importantíssimo, reflexo de um novo foco no Brasil: com desconexão ideológica. Permitiu ainda que fosse tratado sem o clima de confronto que marcou historicamente outros debates sobre minorias.

Deficiência auditiva não é opção. Trata-se de uma falha biológica. Você não opta por não ouvir. Está acima de ideologias. Se pode dificultar a comunicação, não deve causar também divisão.

A estratégia de usar o Enem para colocar em pauta os problemas enfrentados pelos deficientes auditivos mostra a sensibilidade do corpo diretivo do MEC para com tema que nunca antes foi tratado como prioritário.

Esse zelo está em detalhes como a não inclusão da palavra “Libras”. Uma pesquisa com a população levaria à constatação de que a maioria não relacionaria o termo com a linguagem de sinais. Talvez associasse mais à “libra esterlina”, a moeda inglesa, ou o signo.

Estou legislando em causa própria. Conheço o tema. Pertenço a uma família que sofre, em graus distintos, de deficiência auditiva. Nosso problema está presente em todos os momentos e não raro enfrentamos intolerância.

Se você não tem paladar, não incomoda ninguém. Se não ouvir ou ouvir pouco, vai sofrer com interlocutores que chegam a gritar como se o incomodado fosse quem está falando e não quem quer ouvir.

Hoje sabemos que quando o deficiente auditivo é cuidado desde a infância os resultados são fantásticos. Tenho como exemplo o trabalho realizado pela minha irmã, Celina. Rapidamente identificou que meu sobrinho tinha a limitação, fez seu acompanhamento e hoje ele é de longe o mais sociável da família, o de melhor humor e tem sucesso. Ah, fala corretamente, quebrando o paradigma do surdo-mudo.

Destaco a contribuição do Suvag (instituição comprometida com a promoção da saúde auditiva) e da Asspe (Associação de Surdos de Pernambuco), que permitem que esse grupo tenha perfeita interação entre si e com a sociedade.

Temos que dar ao portador de deficiência não apenas instrumentos como o conhecimento da linguagem de sinais – a Libras é língua oficial no Brasil pela Lei 10.436 -, mas assegurar que seja amplamente adotada. Igualmente importante é que todos tenham a sensibilidade de se ajustar na convivência com essas pessoas.

Hoje, já temos tecnologias fantásticas para convívio com alguns dos problemas da surdez. Temos aparelhos auditivos que permitem adaptação tão perfeita que cria até o risco de esquecimento: por exemplo, entrarmos no chuveiro sem lembrarmos que estamos com o equipamento. Como na vida aprendi a sempre identificar o lado bom de tudo, de cara posso apontar um privilégio dessa deficiência: quando você quer, se desliga do mundo. Basta um turn-off no equipamento.

E não podemos esquecer a coragem do surdo, que é famosa. Tem uma explicação: já percebeu que um susto é precedido de som que mexe com sua imaginação? Pode ser um estampido, um rugido, um grito... Esses sons, que alimentam o medo, não nos atingem. Somos biologicamente destemidos.

Minhas memórias de criança incluem a história de um amigo boxeador pernambucano que morava na praça do Chora Menino, no Recife, que era imbatível. E surdo.

Dou nota 10 à equipe do Enem. Surpreendeu a todos colocando em evidência uma minoria que estava sendo ignorada e que precisa ser respeitada.

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