segunda, 19 de fevereiro de 2018

Roberto Cavalcanti
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Democracia

03 de dezembro de 2017
Carlos Drummond de Andrade dizia que “democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder”. Define o atual estágio da nossa, com certeza.

Gosto de pensar que poderemos atingir o ideal imortalizado por Abraham Lincoln, de um “governo do povo, pelo povo, para o povo”. Um sistema no qual todo homem seja respeitado como indivíduo e que seus direitos básicos sejam realmente protegidos.

No momento, estamos numa encruzilhada, em fim de caminho. Em bifurcação de vereda. Conquistamos o direito de escolher livremente nossos representantes, de renová-los periodicamente, mas ao invés do compromisso de elegê-los com base em critérios defensáveis, temos desvalorizado o bem precioso, optando por um padrão danoso.

Temos um longo caminho a percorrer, é certo, mas não chegaremos a lugar nenhum se não protegermos o que temos. E nossa democracia está sob ataque da corrupção, dos efeitos da crise econômica e do medo da violência.

Temos assistido, com intensidade nunca vista em nossa história, os clamores por uma intervenção militar. Em qualquer rede social se assiste vídeos com conclamações respaldadas na falta de pudor dos que deveriam cuidar do País, no assalto aos cofres públicos e na perda de valores consagrados. A radicalização é filha do desespero e da perda de controle.

Democracia é um sistema fantástico, quando funciona.  Na inoperância, facilita o sucesso dos que agem com outros objetivos. Com a experiência de quem foi conselheiro de cinco presidentes dos Estados Unidos, Henry Kissinger sustenta que “o poder é o afrodisíaco mais forte”. Sendo tão atrativo, não devemos subestimar nenhuma ameaça.

Não temos tempo a perder. As instituições democráticas têm que dar respostas urgentes aos brasileiros, para frear essa tendência ao extremismo. Têm que recuperar de alguma forma a confiança da população, para que volte a acreditar que é possível governos democráticos, sérios, eficientes e voltados para o bem comum.

Conscientizar o eleitorado brasileiro, faltando menos de um ano, a votar qualitativamente, é uma missão que todos devemos compartilhar, embora sua concretização esteja mais para utopia.

Não vamos nos enganar: pelas regras eleitorais vigentes, resultado de uma reforma política nanica, dificilmente faremos uma revolução usando as urnas de 2018. A probabilidade maior é de que troquemos seis por meia dúzia.

Se uma parcela da população mantém a inocência e a boa fé, e se deixa seduzir por promessas, a outra, que conhece a verdadeira dimensão do estrago feito no País admite a radicalização, onde vamos parar?

Ainda acredito que um esforço dos três Poderes pode dar respostas à população, pode redirecionar todas essas energias para o bem: o fortalecimento de nossa democracia.

Nada impede que o Legislativo, após o recesso, estabeleça uma pauta de salvação, daquilo que é essencial para o País. O brasileiro também espera celeridade nos julgamentos por parte do Judiciário. E bons exemplos, afinal, no conceito de Justiça está o que é certo, bom, justo.

Por fim, precisamos de um Executivo agindo com mão de ferro para expurgar os corruptos. O suado imposto do cidadão não pode continuar sendo desviado para enriquecimento de poucos, enquanto muitos sofrem sem os serviços básicos e a economia rasteja à espera de infraestrutura.

Há muito desencanto, excesso de frustração e falta de perspectivas. A desilusão é péssima conselheira. É tempo de agir!

Estamos na encruzilhada e não basta colocar a placar indicativa de “Democracia”. Diante de tantas decepções, e das opções em debate, nunca foi tão necessária uma boa razão para acreditar e persistir no caminho.

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