segunda, 11 de dezembro de 2017

Roberto Cavalcanti
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De esporte à degradação

07 de dezembro de 2017
Sempre tive alegrias e decepções com o nosso futebol, mesmo não estando no ranking das minhas predileções. Amo o automobilismo, os esportes náuticos - especialmente a vela -, e puxando ao meu avô materno, as corridas de cavalos.

Sempre acompanhei o Brasil ser considerado a pátria do futebol, celeiro dos melhores craques do mundo, e de repente, ser abatido por um 7 a 1 que não foi maior apenas por conveniências estratégicas do adversário, que ainda teria um jogo decisivo na terra do humilhado.

As vitórias e as derrotas têm lógica. Sou positivista e acredito na lógica. Sempre foi ilógico para mim não podermos ter confiança no futebol brasileiro. Falo em nível local, nacional e mundial.

Agora, tudo ficou mais claro: estamos na liderança da degradação desse esporte. Nelson Rodrigues disse que “Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. Há muita verdade nessa frase.

A revelação vem de fora. Jamais partiria do Brasil a apuração de fatos que empanariam o brilho do futebol mundial. Foi graças à ação da polícia de um país que aplica suas leis com rigor que o submundo do crime futebolístico foi revelado.

Foi o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos que começaram a investigação de corrupção, para responder se bancos americanos estavam transferindo recursos oriundos de operações de suborno, fraude e lavagem de dinheiro.

Descobriram que a corrupção era muito mais abrangente. Também estava presente nas relações com os meios de comunicação, concessões de direitos de marketing para os jogos da Fifa nas Américas, em contratos de patrocínio, escolha de países para sediar Copas do Mundo e até na eleição para a diretoria da entidade.

O executivo americano de futebol Chuck Blazer foi o primeiro a fazer acordo de delação e ajudou o FBI a esclarecer os fatos que levaram à prisão sete dos mais notáveis dirigentes do futebol mundial, sendo três brasileiros.

Foi ação digna de roteiro de Hollywood. Estavam todos em um luxuosíssimo hotel na Suíça quando foram presos. Os brasileiros eram o ex-presidente da CBF José Maria Marin, José Hawilla, dono do Traffic Group (agência de marketing esportivo, dona dos direitos de transmissão, patrocínio e promoção de eventos esportivos no Brasil), e José Lázaro Margulies, das empresas Valente e Somerton (transmissão esportiva).

A Fifa foi célere ao iniciar uma investigação própria e tentar mostrar isenção. Seu relatório cita ainda os cartolas brasileiros Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira por “corrupção”.

No último dia 16 de novembro, o empresário Alejandro Burzarco (empresa Torneos y Competencias), em depoimento à Justiça dos EUA, incluiu a Globo na lista dos que pagaram propinas a altos executivos da CBF e da Conmebol (Copa Libertadores e Copa América) para conseguir direitos de transmissão de campeonatos de futebol.

Só agora entendo o porquê de uma única empresa de televisão deter a exclusividade da cobertura de diversos eventos esportivos, tendo empresas concorrentes feito ofertas superiores em mais de US$ 100 milhões e ainda assim saíram derrotadas.

Não bastaram as construções de vários estádios com comprovado superfaturamento e as suas totais ociosidades pós-Copa de 2014. O que interessava não era proporcionar bons espetáculos, e sim o enriquecimento ilícito de empreiteiras e gestores públicos.

Será que o nosso Brasil conseguiu exportar corrupção para o mundo até nesse campo?

O que me resta é sonhar com a minha adolescência, na qual, para mim, o Sport Club Recife era o universo, e hoje, na maturidade, ter a alegria de vê-lo no topo do futebol brasileiro.

 

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