segunda, 21 de maio de 2018

Roberto Cavalcanti
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Colchão digital

19 de Abril de 2018
Devemos aos gregos mais do que as olimpíadas, a democracia e a invenção da política, o conceito de ética, o desenvolvimento do pensamento lógico, a arte e literatura imortais.

Temos a agradecer mais de que por Homero, Sócrates, Platão e Aristóteles, pelas histórias do Olimpo e os exemplos de heróis como Aquiles, Teseu, Perseu, Hércules e Atlanta.

Eles também criaram a primeira moeda metálica, com valor determinado e reconhecida pelo Estado, nos moldes das atuais. E isso ainda no século VII a.C.

Antes da invenção grega que revolucionou o comércio, tivemos as fases das trocas de produto por produto (escambo), das mercadorias que funcionavam como moedas, e a dos metais – ouro, prata, cobre e ferro - sob qualquer forma.

Foi a China, por volta do ano 960, que lançou o papel-moeda, mas não durou. 700 anos depois – foi em 1661 -, a Suécia “inovou” imprimindo as primeiras cédulas da Europa. Um sucesso.

A mesma Suécia pode se transformar no primeiro país onde não haverá dinheiro vivo em circulação. As previsões apontam para 2030, mas na atualidade já são comuns cartazes em lojas e restaurantes anuciando que só aceitam pagamentos em cartão e por celular.

O país estaria liderando uma tendência que levaria ao fim do dinheiro físico – cédulas ou moedas metálicas.

Já temos exemplos desse futuro. A gigante de tecnologia Amazon inaugurou em 2016 a “Amazon Go”, onde não existem caixas, atendentes ou filas. O consumidor faz seu registro, escolhe os produtos e vai embora. Os sensores espalhados pela loja registram o que pegou, conferem na saída, debitam direto na sua conta e ainda enviam lista para conferência.

A Apple também entrou nessa corrida com o serviço “Apple Pay”, que pretende não apenas substituir o papel-moeda, como o cartão de crédito. No Brasil já é aceito em mais de um milhão de estabelecimentos. O consumidor só precisa do seu Iphone, da digital ou FaceID (para o modelo X).

Nessa corrida, também estão as criptomoedas, a exemplo da bitcoin, que vêm mudando formas de comprar, vender e atraindo investidores, apesar dos riscos envolvidos e dos alertas de bancos centrais.

O fato é que a Suécia já é o país onde circula menos dinheiro vivo. Pesquisa divulgada em janeiro apontou que apenas 25% dos suecos fizeram pagamento com notas ou moedas ao menos uma vez por semana.

O banco central da Suécia estuda o fenômeno, porque a não aceitação de dinheiro físico tem consequências. Por exemplo: os idosos, sem familiaridade com o mundo digital, enfrentariam muitas dificuldades.

Ainda bem que no Brasil, como em outras grandes economias do mundo, essa tendência ainda não encontrou ambiente propício. Temos um crescimento do uso de cartão de crédito, mas o dinheiro em circulação aumentou de 2,7% para 3,7% do PIB entre 2001 e 2016.

Nas economias desenvolvidas e emergentes, segundo estudo do Banco Internacional de Compensações (BIS), passou de 7% para 9% do PIB no mesmo período.

Considerando que a Suécia pode voltar a influenciar o mundo, mais do que nunca atualização é questão de sobrevivência. E eu, na velocidade dessa evolução, como fico?

Nossos ancestrais já usaram colchões para guardar suas reservas. Será que teremos a opção de “colchão digital”? Será que o dinheiro que tanto lutamos para ter em nossas carteiras será visto apenas nos museus?

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