terça, 12 de dezembro de 2017

Roberto Cavalcanti
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Até quando?

19 de novembro de 2017
O Barão de Montesquieu, autor da consagrada teoria da separação dos poderes que o Brasil adota, revelou que quando ia a um país não examinava se tinha boas leis, mas se as que lá existiam eram executadas. Boas leis todos podem fazer. Já a obediência a elas exige compromisso, requer ação. Não importa que a Constituição seja chamada de “cidadã”, mas que o cidadão tenha pelo menos o mais primordial dos direitos, o de viver.

Em período no qual não tínhamos uma democracia tão festejada, valores éticos, morais e religiosos compensavam. Ação causava reação, atos tinham consequências. Dois fatos para ilustrar essa reflexão: Madrugada de 5 de agosto de 1954: o jornalista Carlos Lacerda, então em campanha para a Câmara Federal, chega em sua casa na rua Tonelero, no Rio de Janeiro,em companhia do filho Sérgio e do major-aviador Rubens Florentino Vaz. São surpreendidos por tocaia.

O major foi atingido no peito e morreu. Lacerda conduziu o filho para a segurança da garagem e voltou atirando. O agressor entra em um táxi e foge. Um guarda municipal anota a placa, permitindo o esclarecimento do crime. O dia ainda não tinha amanhecido e a Polícia já tinha ouvido o motorista e identificado o pistoleiro, que foi contratado por Climério Euribes de Almeida, da guarda pessoal do Presidente da República, Getúlio Vargas, e apontou seu fi lho, Lutero Vargas, como mandante.

A repercussão foi tamanha que Getúlio, apenas 19 dias depois do atentado, admitia se licenciar do cargo até que tudo estivesse calmo. Pressionado a renunciar, optou por uma saída dramática: suicídio. Os cinco que planejaram ou participaram do atentado a Lacerda foram todos condenados e cumpriram as penas. 63 anos depois...

Manhã de quarta-feira, 15 de novembro de 2017, também no Rio de Janeiro: uma dupla segue o carro do coronel reformado da Aeronáutica Ialdo Pimentel, que estava acompanhado da esposa. No túnel Marcello Alencar, na zona portuária, interceptam e matam o militar, e somem.

A Polícia diz que ainda não sabe se foi tentativa de assalto ou execução, nem identificou o assassino do coronel-aviador, que mesmo reformado trabalhava no Centro de Computação da Aeronáutica. Em comum, os dois casos têm como vítimas oficiais de alta patente da Aeronáutica, mas enquanto o de 1954 foi rapidamente elucidado, o atual tem tudo para virar apenas uma estatística.

O crime do coronel-aviador pode não ser político, mas é resultado de políticas que privilegiam tudo, menos valores sólidos. Que brasileiro já não acompanhou, por telejornais, supostos tiroteios entre policiais e bandidos no Rio? Digo supostos, porque as únicas vítimas desses confrontos não estão entre os lados armados, mas são as atingidas por balas perdidas.

A “ineficiência” da Polícia do Rio foi exposta pelo Exército, cujos atiradores conseguiram acertar os traficantes no Complexo do Salgueiro, após serem recebidos à bala. Por isso, houve comoção. E atendendo a regra do politicamente correto, as manchetes anunciam “jovens mortos” e não “traficantes mortos”. Porte de arma de fogo de uso restrito das Forças Armadas passou a ser “crime hediondo”.

Quem já foi preso para servir de exemplo? Que brasileiro não se sente envergonhado quando, ao sediar um GP de Fórmula 1, o País vira manchete mundial não pelo que ocorreu na pista, mas por duas equipes participantes terem sido assaltadas? Estamos convivendo com um modelo que reformula o conceito de família, que é cúmplice das drogas, que rejeita os princípios religiosos, que desarma o cidadão - e não o bandido. Ao mesmo tempo, indefesos, assistimos ao extermínio da confiança no poder público de assegurar a paz prometida. Até quando estaremos pacientemente aguardando por soluções supostamente democráticas? Até quando?

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