terça, 18 de setembro de 2018

Roberto Cavalcanti
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Armadilha

23 de novembro de 2017
Desde pequeno – não na altura, porque sou baixinho, mas na idade - faço o percurso Recife-João Pessoa. Com menos de 10 anos já acompanhava meu pai, que fazia pesquisas socioantropológicas sobre antigos quilombos, e no seu roteiro estava um na Paraíba.

Aos 19 anos, vim a João Pessoa para acompanhar apresentação de um conjunto musical do Recife - na verdade, o objetivo era vigiar a namorada, que integrava a banda que faria a apresentação - hospedando-me no Paraíba Palace, que na época era a opção.

Posteriormente – exatamente em 1968 – fui trazido pelo então governador João Agripino para prospectar e implantar indústria em João Pessoa.

Entre 1970 e 1976, pensei que poderia administrar meus dois mundos – o de origem, Recife, e o novo, João Pessoa – indo e vindo diariamente. Na impossibilidade, decidi fixar residência definitiva e única na capital paraibana.

Isso não inibiu, por atavismo e amor aos esportes náuticos, que todas as quintas-feiras fosse até Recife para a reunião da vela no “Cabanga Iate Clube”. Fui obrigado a renunciar ao saudável hábito em 1984, em razão da morte de Paulo Brandão, meu primo e então sócio.

Atualmente viajo com menos frequência, evitando o percurso mesmo após a duplicação da BR-101, o que certamente minimizou os riscos de acidentes rodoviários.

Recentemente escapei, e creio que por intervenção divina, de ser assaltado, coletivamente, em um trecho da BR-101, no sentido Recife-João Pessoa, num trecho em aclive logo após o Engenho Botafogo, portanto em terras pernambucanas.

Faço o registro do local exato por questão de justiça. A violência não está só na Paraíba. Não! Infelizmente, está presente em todo o País.

O modelo do assalto coletivo ocorre quase todas as noites, no mesmo local, já sendo do conhecimento da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que não dispõe de nenhuma estrutura para antecipadamente inibi-lo.

Na operação, os criminosos recorrem, alternadamente, ao uso de pedras para obstruir a pista ou de grampos metálicos para esvaziar os pneus dos carros. O objetivo é um só: obrigar o motorista a parar, para que possa ser assaltado.

Para minha sorte, quando cheguei ao local da abordagem, a PRF estava lá, desativando a armadilha: tirando as pedras para liberar a rodovia.

Tenho ouvido inúmeros depoimentos sobre esse tipo de crime, na mesma área. Acionei a redação do Correio para que solicitasse à PRF e à Secretaria de Segurança de Pernambuco os números exatos das ocorrências. Houve a admissão dos fatos, porém, os números de sua regularidade foram negados.

O perigo na estrada é um fato impossível de ser ignorado. Podemos nos deparar com o ardil das pedras e dos grampos, e sermos obrigados a parar e nos submeter aos criminosos.

No passado, comboios eram formados para enfrentamento de trechos perigosos, numa união de forças para suplantar a dos bandidos. Hoje, não faz sentido. Aliás, os criminosos adorariam um comboio, pois seriam mais carros, com mais pessoas desprotegidas e sem capacidade de reação, para serem saqueadas.

Profissionalmente, tenho que ir a Recife com certa frequência. O que posso eu, cidadão, fazer, diante da possibilidade dessa armadilha na estrada? Estou desarmado, todos os demais veículos que pararem terão condutores e passageiros também desarmados. E o bandido sabe disso. Aliás, atua em razão disso.

Que mais posso fazer, além de conviver com a angústia da impotência? Como não posso deixar de ir a Recife, e tenho que voltar porque João Pessoa é minha casa, resta orar a Deus para que continue me livrando, como já fez, enquanto faço o registro para que todos fiquem em alerta para o perigo na estrada.

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