terça, 17 de julho de 2018
Cinema
Compartilhar:

‘Quarto Camarim’ será exibido nesta quinta-feira em João Pessoa

Audaci Júnior / 04 de abril de 2018
Foto: Divulgação
Quando criança de tenra idade, o que mais atiçava a curiosidade da futura cineasta baiana Camele Queiroz era a porta de um quarto que ficava sempre fechado para ela em Feira de Santana (BA). A penteadeira e os objetos adornados chamavam muita a atenção quando ela conseguia captar entre as frestas ou aberturas esporádicas daquela entrada proibida. Emanava uma luz fraca daquele canto, que a realizadora definiu como “um lugar de transformação”.

Depois dos seus seis anos de idade, foram quase três décadas de ausência de diferentes gerações e vivências. Camele Queiroz finalmente se reencontrou com o dono daquele quarto, seu tio Roniel, depois de 27 anos sem saber o paradeiro dele. Ou melhor: dela – atualmente sua parente travesti atende pelo nome de Luma e, até então, residia na cidade de São Paulo.

Essa é a história que move o documentário Quarto Camarim, filme que terá exibição gratuita amanhã em João Pessoa, no Cine Bangüê, em uma nova edição da Sessão Abraccine, promovida pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema, com filmes ainda inéditos no circuito.

Contemplado pelo projeto Rumos Itaú Cultural, a sessão a acontecerá às 19h terá um debate mediado por André Dib, curador e crítico de cinema filiado à Abraccine, além de contar com a presença da realizadora e produtora Caroline Oliveira, da antropóloga com pesquisa na área do cinema documentário Juliana Crelier e do realizador e professor da UFPB Pedro Nunes.

No filme, é documentado o primeiro contato que a sobrinha tem com a tia cabeleireira e performer. Apesar de ter um roteiro pré-estabelecido junto com o codiretor Fabricio Ramos, Camele explica que o longa foi se construindo à medida em que o documentário estava sendo vivenciado. “Isso dava um novo sentido de tudo aquilo com idéias que estavam no roteiro inicial”, conta.

As tensões da relação entre sobrinha e tia constituem a narrativa, tendo em vista que Luma, às vésperas de iniciar as filmagens, desiste de participar do projeto para depois voltar atrás. “As lacunas desse reencontro foram abraçadas dentro da estrutura”, coloca. “A relação já era delicada e ter um filme no meio a tornou mais delicada ainda. Isso teve um impacto com relação a Luma. O cinema estava mediando essa relação também”.

Entre fato e memória

A própria diretora questiona se essa busca acontece por razões afetivas ou se limita ao objetivo de fazer Quarto Camarim. O afeto entre ambas vai se manifestando aos poucos, costuradas pelas conversas sinceras.

Dando espaço para os fatos e as memórias que nublam fronteiras entre documentário e ficção, o longa mostra o reencontro entre duas personagens de diferentes gerações e vivências, mas que podem se encaixar em qualquer família do mundo. Tanto que a diretora relembra da primeira exibição no Rio de Janeiro, onde várias pessoas captaram as questões intrínsecas apresentadas na telona.

“O que mais impactou nelas foi o contexto familiar, o relacionamento dos dramas familiares nas suas vidas”.

Camele confessa que sempre queria saber o paradeiro daquele tio homossexual que fazia performances e tanto a fascinava pelas frestas do quarto com luz bruxuleante.

“Luma conta que foi – se não a primeira – uma das primeiras travestis a usar saia nas ruas de Feira de Santana, árida em vários sentidos, geográficos e simbólicos”, diz a cineasta. “Para mim, ela se tornou um exemplo de coragem, que acabou por me inspirar por conta de sua forma de encarar as mudanças e os desafios da vida, mesmo os mais difíceis, sempre com altivez e confiança”.

Por muito tempo a ideia do reencontro perambulava a sua cabeça, até que foi sinalizada de forma concreta, o que veio também à sua mente a pergunta: “Por que não transformar em algo e compartilhar com as pessoas?”. O resultado é Quarto Camarim, um projeto documental que faz parte de uma relação ainda delicada de reconstrução. “Aquela busca fica ali, no filme, mas a vida segue”.

Relacionadas