sábado, 19 de agosto de 2017
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Voluntários dão ‘banho de amor’ em moradores de rua da capital paraibana

Luís Eduardo Andrade / 17 de julho de 2017
Foto: Luís Eduardo Andrade
Você já tomou banho hoje? Se a resposta for negativa, muito provavelmente o motivo foi sua própria vontade. Mas a verdade é que no dia de hoje, você talvez já tenha passado por debaixo de uma ‘cachoeira particular’ no banheiro de sua casa. Um hábito simples. Muitas vezes rápido. Mais vezes ainda, automático. Porém, para quem não dispõe dessa oportunidade diariamente, o banho ganha um significado diferente. “É a melhor hora da minha semana. Depois desse banho, eu nem pareço eu”, diz Roberto Ferreira Soares, de 32 anos, que mora na rua há 12 anos, após sair do chuveiro do projeto ‘Banho da Misericórdia’, da Comunidade Católica Filhos da Misericórdia (CFM) que promove um momento de limpeza física e espiritual a moradores de rua da capital.

O projeto surgiu em dezembro de 2016 e consiste em levar dignidade e limpeza a moradores de rua, além de alimentação. A estrutura é formada por uma caminhonete ligada a uma carreta com dois boxes, um feminino e um masculino. No veículo é colocado um depósito com quatro mil litros de água que rende aproximadamente 50 banhos. Além disso, existe um resistor ligado a um gerador de energia que esquenta a água que chega aos chuveiros dos boxes. Ao sair, os moradores de rua recebem toalhas, escovas de dente, desodorante, barbeadores, absorventes e roupas novas.

Por fim, os ‘irmãos de rua’, como são conhecidos, são convidados a jantar as quentinhas preparadas pelos voluntários previamente, com o mínimo de dignidade que um ser humano precisa: sentado em uma mesa. Prazer que poucos desfrutam normalmente. Todas as terças-feiras a caminhonete desembarca na Avenida B. Rohan, próximo ao antigo Correios e Telégrafos. Às quintas-feiras, o banho segue para o Mercado do Peixe, em Tambaú, e no sábado, o banho acontece no Bompreço de Jaguaribe, na Avenida João Machado.

O relato que o leitor está prestes a conhecer se sucede após dois dias de aprofundamento no projeto da CFM. Através da história de alguns personagens que fazem parte desta obra, você entenderá o que move cada pessoa, como a água do ‘Banho da Misericórdia’ tem a capacidade de limpar o coração dos moradores de rua e principalmente, de entender quem realmente sai ganhando em toda essa história. E nosso papo começa com dona Masé.

'Mãe Masé', a doadora de amor



Meu primeiro contato com o projeto foi no ponto da terça-feira, próximo aos Correios e Telégrafos, região conhecida como ‘cracolândia’. Ao descer do carro, confesso que esperava ser recebido em um ambiente hostil, mas encontrei mesas postas na calçada, muitas luzes, pessoas conversando e interagindo. Logo me senti à vontade. Em todas as conversas paralelas que espiava, era possível ouvir o nome “Dona Masé”, então, após breve procura, encontrei a dita cuja. "O maior salário que eu recebo na minha vida é esse serviço, não há nada mais importante do que você chegar diante deles, e eles dizerem que eu sou a mãe deles e agradecer pelas simples coisas que eu faço. Essas quentinhas que sirvo não saem nem do meu suor. O pessoal doa e gente traz. Então eles ficam muito agradecidos. A gente pensa que é pouca coisa, mas para eles é o máximo. Eles pegaram esse amor a mim por conta disso e estou correspondendo. Seria ingratidão minha não corresponder a isso. A primeira pessoa a ser beneficiada sou eu”.



Servindo com moradores de rua há nove anos, a ‘Mãe Masé’ ou ‘Vó Masé’ é a personificação do amor trazido pelos voluntários. Durante os dias em que estive dentro do projeto, perdi as contas de quantos moradores de rua a abraçaram e passaram longos minutos desabafando em seu busto largo. Próximo de completar 70 anos, dona Masé atesta que não há esforço e nem cansaço. “Isso para mim é tudo. O salário é o amor. Que vale muito mais do que dinheiro”, finaliza.

A 'flauta encantada" de Vandré Bernardino Carneiro



Ao conversar com Dona Masé, fui interrompido pelo som agudo de uma flauta doce desafinada, mas melódica. A música era ‘Oração pela família’, do icônico padre Zezinho. O instrumentista que ditava o som do ambiente era Vandré Bernardino. “Achei essa flauta no lixo, junto com o papel de instruções e comecei a tocar sozinho. Já aprendi a tocar teclado também”, disse o autodidata.

Não precisei insistir muito para saber os motivos que levaram o, aparentemente letrado, seu Vandré, às ruas. E a resposta foi uníssona em todas as minhas conversas: crack. O mesmo pulmão que sopra a flauta doce em louvor a Deus é o mesmo que se entrega a um vício que destrói e mata. E quase matou. Seu Vandré foi jurado de morte e precisou deixar sua casa, pois traficantes estavam cobrando uma dívida que, segundo ele, já fora paga. E enquanto não consegue voltar até seu lar, se vira como pode. A sujeira das ruas e das drogas impregna na alma. Quinze dias. Esse é o tempo que seu Vandré afirma ter passado sem se lavar. “Fumo crack, cigarro e álcool, tenho desejo de sair dessa vida. Eu passei 15 dias sem tomar um banho e hoje vou tirar o grude. Você não sabe a alegria que eu estou aqui. Depois do banho me sinto leve, maneiro. Sinto uma limpeza espiritual. O pessoal tem uma energia positiva, porque a gente vive nessa ‘mundiça’ e ninguém é ninguém. Mas depois do banho eu até me sinto gente”, revela.

Seu Vandré ainda atesta que a rua pode ser definida de maneira simples: “Desprezo, humilhação e solidão, porque aqui é cada um por si”.



Ouça aqui a 'flauta encantada' de Vandré

Matheus Gomes, 23 anos, estudante e voluntário

Ao fim de minha conversa com Seu Vandré, enquanto ele me pedia para gravar mais uma de suas intermináveis músicas, uma voz grave me chamou atenção. Um rapaz alto, de olhos claros e bem-apessoado organizava a fila do banho. O trato do garoto beirava o limite entre a educação e a autoridade para lidar com pessoas sem tanta educação. Preciso. Me aproximei. “Aderi ao projeto recentemente, há um mês mais ou menos. Desde que vim, todas as vezes a vontade de vir se renova. Ao fim de cada dia, quando você junta tudo, guarda tudo, você sente aquela paz, é indescritível. E o retorno é muito grande.”, disse Matheus.

O estudante, de apenas 23 anos, diz que vai muito além do projeto. “Às vezes não é nem o prato de comida ou o banho, mas você dá um abraço que paga mais que uma comida ou um lanche. O retorno é maior do que a entrega. Minha entrega é de duas, três horas, e o retorno que eles dão é grande demais. O cara anda na rua, encontra com eles, é a maior felicidade. Vale muito a pena”, finaliza.

Karina dos Santos, 41 anos, vendedora de drogas e moradora de rua

Essa entrevista talvez tenha sido a mais difícil desta reportagem que o leitor acompanha agora. Me aproximei de uma jovem adulta que estava na fila do banho e, através dos olhos muito vermelhos, logo percebi que poderia ser mais uma usuária de drogas. “Se o senhor puder não gravar, eu agradeço.” Imediatamente desliguei o gravador e comecei a conversar com a moça para entender o motivo do pedido. E logo compreendi.

Karina (nome fictício) me confidenciou que vende crack na região durante a madrugada. Mais precisamente até as 8h da manhã. Direto. No momento de nossa conversa, meu relógio marcava 22h13, Karina já estava na ‘labuta’ há mais de 4 horas e os sinais de cansaço já eram visíveis. Talvez o esforço psicológico de vender a dor seja maior do que o físico. Mas não! Ela também é viciada. No meio tempo, encontra alguns minutos para entrar na fila do banho. Mas o olhar para todos os lados, esse não descansa. Sua aflição me causou angústia. Quando perguntada se estava esperando por alguém, respondeu um ‘não’ acompanhado de um sorriso amarelo.

Voluntariado na alma de Renata Carvalho da Luz

“Primeiro eles tomam banho e recebem uma ficha que dá direito a uma quentinha. Ainda damos a sopa também. A mesa que trazemos para eles sentarem também faz parte desse projeto de trazer dignidade até na hora de comer”, disse Renata. Célere e andando de um lado para outro, era possível ver a preocupação de Renata com cada morador de rua. Saber se todos já estavam alimentados ou se ao menos já estavam devidamente aguardando sua vez. Preocupação de mãe.

E sua profissão não poderia ser outra. Tanto no seu emprego quanto no voluntariado, Renata promove a justiça para aqueles que já andam tão injustiçados. Como seu Vandré havia me dito, na rua é só desprezo, solidão e humilhação. E como o leitor já deve ter percebido, tudo nessa matéria tem um significado. E o sobrenome de Renata não poderia ser mais relevante: da Luz. Dá luz!

Meu relógio de pulso marcara 22h42. Nesse momento o cansaço começava a me tomar. Fiz minha última pergunta e Renata respondeu não só para o leitor, mas também para mim.



Ladeílson Carlos, 23 anos, comerciante e morador de rua

Sentei-me em uma das mesas para conversar com moradores que desfrutavam de sua refeição. Acomodei-me ao lado de um rapaz alto, de boa aparência, ainda exalando o cheiro do desodorante. Enquanto Ladeílson, educadamente, comia sua refeição, me perguntei o que levara aquele jovem, bem diferente da maioria dos moradores de rua, a participar do projeto. Externei. “Eu morava aqui em João Pessoa, mas fui pra Cabedelo e lá conheci as drogas. Me acabei. Pedi a minha mãe R$ 1.000 e fui embora. Gastei tudo em droga”. Nesse momento, fiquei surpreso.

A história que Ladeílson me contara é bíblica (Lc 15, 11-32). Eu estava diante do filho pródigo. Aquele que pede parte da herança aos pais, gasta tudo e volta arrependido. Mas aqui o final foi diferente. “Fiquei por aqui com vergonha de voltar pra casa. Minha mãe me chama direto, mas tenho vergonha. No momento, estou dormindo em uma lanchonete lá no Mercado (Central). O rapaz de lá está me dando uma força, ele me dá uns salgados para eu vender e eu durmo lá. Porque eu to querendo largar a droga”, diz Ladeílson confiante.

O jovem relata que, para ele, o banho é um momento único. Na lanchonete onde dorme, o tímido Ladeílson tem vergonha de pedir para tomar banho sempre. E procura os voluntários da CFM para satisfazer o desejo de limpeza. “Eu sei que não é fácil. vocês conseguem doações, se movimentam. Isso pra mim representa um trabalho de humanidade e de amor, pra mim é isso”, revela.



Heleno Filho, 47 anos, voluntário

Meu primeiro contato com Heleno foi cheio de agonia. Enquanto a chuva caía forte no mercado do peixe, em Tambaú, o jovem adulto organizava a estrutura do banho com cones e cordas. Ensopado pelas águas que vinham do céu, Heleno promove aos moradores uma água também de origem divina.



Enquanto conversávamos, fomos interrompidos por um dos ‘irmãos de rua’ que foram plenamente atendidos por Heleno. Visivelmente embriagado, o morador recebeu toda atenção do voluntário. Como um filho. Heleno Filho. E justamente essa atenção é o salário de Heleno. “O que mais me gratifica é quando a gente chega, desce do carro e o cara vem todo sujo, com cheiro de urina, fezes, drogado, embriagado, mas eles vêm abraçar a gente com carinho. E depois disso tudo, a gente não se sente sujo. Isso é o que me gratifica”. Nesse momento, Heleno cai em lágrimas e interrompe a nossa conversa. A emoção transborda e chega até o repórter que fala com vocês agora.

Fazer bem, faz bem

Em todos os relatos que o leitor pode acompanhar, os voluntários atestam que se sentem bem ao se doar aos outros. Que a entrega não promove cansaço, mas sim prazer e satisfação. Segundo a psicóloga Olga Tessari, é cientificamente comprovado que o altruísmo faz bem. “O trabalho voluntário faz bem porque libera no cérebro a endorfina, responsável pela sensação de prazer. Ela diminui a sensação de dor e as chances de ficar doente, traz uma sensação gostosa de bem-estar, entre outros fatores”, garante a especialista.

Mais do que se sentir bem, fazer o outro bem é o grande ponto do ‘Banho da Misericórdia’. Notar quem não é notado. Olhar para quem não é olhado. Descobrir seres humanos dentro de uma casca de drogas e sujeira. Os voluntários arrumam suas coisas, ajeitam a caminhonete, entram nos carros e vão embora. O frio fica. A solidão também.

Para fazer parte do projeto, basta entrar em contato:

Sarah: (83) 9 9619-5335

Instagram: @cfm_jp e @banhodamisericórdia

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