segunda, 16 de outubro de 2017
Cidades
Compartilhar:

Violência muda a cara e a arquitetura da cidade nas últimas décadas

Bruna Vieira / 13 de julho de 2015
O aumento da violência e da sensação de insegurança nas cidades modificou a estrutura arquitetônica das casas, nas últimas décadas. Muro alto, cerca elétrica, câmeras e vigilância humana não faziam parte da realidade urbana de João Pessoa, há 30 anos. O aumento dos assassinatos ajuda a explicar essa mudança. Os homicídios no Estado cresceram 458%, entre 1980 e 2014. Foram 1.581 no ano passado. Este ano, só no primeiro trimestre já foram 400 casos, 15,6% a mais do que no mesmo período de 2014.

Com isso, um negócio se expande: as empresas de segurança particular. A população recorre ao serviço privado, quando o poder público não satisfaz.

Hoje, cada vez mais, as pessoas se isolam em suas ‘fortalezas’ monitoradas por sistemas de segurança para se manterem a salvo da ação dos criminosos. Mas, para arquitetos e sociólogos, esse isolamento social é um dos fatores que contribui ainda mais para o aumento da criminalidade.

A cada tragédia, uma mudança

Para o arquiteto Jonas Lourenço, houve uma mudança radical na arquitetura urbana. “Cada tragédia ajuda a modificar, porque as pessoas ficam com medo de acontecer com elas. As casas passam a ter vidraças e grades. Só que em vez de combater a violência, as pessoas se isolaram, com a criação dos condomínios horizontais no estilo americano. Antes, as casas eram abertas, as pessoas eram recebidas no terraço. Em bairros simples e no interior isso ainda existe”, informou.

Segundo Jonas, a arquitetura atualmente se preocupa muito mais com a segurança que a estética. “A violência tem moldado a arquitetura e o comportamento do cidadão. O lado bom é que surgem novas profissões. O designer cria novos ambientes porque as pessoas querem ficar em casa, ter uma sala de cinema em casa. O que gastavam fora, investem em mobiliário, iluminação e segurança”, afirmou.

Os que não fogem para os edifícios e condomínios fechados estão criando muralhas ao redor das casas. “As pessoas não querem ostentar riqueza, características de individualidade estão desaparecendo para não chamar atenção. O muro alto não traz segurança. Pelo contrário, vai esconder o ladrão. Tenho um cliente que já foi assaltado várias vezes e decidiu por um muro baixinho. É preciso aliar alarme e câmera. Só muro não basta”, ressaltou.

Para o futuro, Jonas acredita que vidros blindados farão parte da infraestrutura residencial, mas não vai resolver. “É preciso uma ação conjunta com profissionais de diversas áreas, com o poder público para trabalhar o espaço urbano de forma cultural e social. Senão, vai virar um caos. As pessoas vão se fechar mais. Iluminação, policiamento e principalmente, a ocupação das ruas são fundamentais para prevenir a violência”, reiterou.

Relacionadas