quarta, 21 de fevereiro de 2018
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Transposição: nove açudes serão abastecidos na PB, mas nem todos estão preparados

Fernanda Figueirêdo / 24 de julho de 2016
Foto: ANTÔNIO RONALDO
Há nove anos, começavam as obras de transposição do São Francisco. A demora trouxe a descrença em ver as águas do Velho Chico salvando o semiárido paraibano. Mas, a água está chegando, garantem os governos. Apesar do Ministério da Integração Nacional ter divulgado, há poucos meses, que a obra seria concluída em dezembro e a água chegaria às torneiras dos paraibanos no primeiro trimestre de 2017, a Secretaria de Estado dos Recursos Hídricos, do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia admite que pode chegar somente em abril.

Será que o novo cronograma se cumprirá? Para quem depende da transposição, resta esperar para ver as águas enchendo os nove reservatórios de destino, no Estado, que sequer passaram por reformas e padecem com a escassez hídrica deste quinto ano consecutivo de seca. Outra preocupação é o que as águas vão encontrar nesse caminho. O motivo é notório: esgotos a céu aberto na cidade de Monteiro, no Cariri paraibano deságuam direto no Rio Paraíba.

Sem dever de casa

A água que sairá direto do túnel construído entre Sertânia (PE) e Monteiro (PB) passará aos 4 km de galeria – trecho de escavação profunda (em média 25 metros) composto por 4 mil aduelas (peça de concreto pré-moldado por onde a água irá passar por dentro da terra). O que o Governo não esperava é que o município não cumprisse sua parte no acordo de garantir o esgotamento sanitário de Monteiro. Resultado: esgotos e dejetos a céu aberto indo de encontro à galeria, de encontro ao local por onde a água limpa do Rio São Francisco deve passar para chegar aos açudes de Boqueirão e Acauã.

De acordo com a Secretaria de Planejamento do municio de Monteiro, a culpa das obras de esgotamento sanitário não estarem prontas é, primeiro, do Governo Federal, que não liberou todo o recurso estimado no projeto feito em 2009, que era de R$ 15.257.661,11. Segundo, da Cagepa, que não está cumprindo com o papel de tratar os esgotos da cidade em duas lagoas de tratamento já existentes, para só então jogar essa água no leito do Rio Paraíba.

“O valor no projeto, em 2009, era de mais de R$ 15 milhões, mas disso, pouco mais de R$ 5 milhões foi, de fato, liberado. Estamos trabalhando com a segunda etapa do projeto, mas ainda falta recurso para a terceira, esta o Governo Federal disse que liberaria para que tudo tivesse pronto até dezembro. Até zerar o saldo que nos resta, vamos dar continuidade às obras. Já concluímos ligações domiciliares, duas estações elevatórias e a rede coletora levando tudo para as duas lagoas já existentes, embora a Cagepa não esteja fazendo sua parte de jogar água tratada no leito do rio através dessas lagoas”, disse o secretário de planejamento de Monteiro, Clênio Nóbrega.

Sobre isto, a dona de casa Aparecida Mendes de Souza, que há 35 anos mora na Rua José Fernandes de Souza Brito, no bairro Alto do Bela Vista, diz que os responsáveis pelas ligações domiciliares só fizeram a obra em um lado da rua, e que todo o esgoto da sua casa vai direto para o Rio Paraíba. “É assim com todas as casas do lado esquerdo. Você acha que eles passaram na rua fazendo as ligações, fizeram só um lado, e vão voltar pra resolver o problema? Nós pagamos serviço da Cagepa, mas vivemos em meio a essa imundície. Já fui várias vezes na companhia pedir o encanamento do esgoto e não fazem nada”, disse.

A assessoria da Cagepa informou que todo o esgoto coletado pela companhia, na cidade de Monteiro, é tratado. “A Cagepa não pode arcar com o esgoto que não é de sua responsabilidade, que, neste caso, são as ligações da própria prefeitura ou ligações irregulares”, disse o gerente regional Ronaldo Meneses.

Apesar do professor e especialista em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Janiro Costa Rego, ter afirmado que a tendência da água corrente do rio é diluir as impurezas acumuladas e que o esgoto de Monteiro, por ser de uma cidade pequena, não representava grande risco de contaminação ao açude Epitácio Pessoa, o especialista em Gestão de Recursos Hídricos, Isnaldo Cândido, ressalta que esta informação não pode ser usada como desculpa para que os governos estaduais e municipais não façam “seu dever de casa”.

“Se fosse assim não precisaria ter sido incluído no projeto a despoluição dos municípios por onde passa a água do São Francisco. Dizem que a alta depuração do rio já dá pra despoluir, mas a gente não pode confiar e não fazer o dever de casa”, disse Isnaldo.

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