terça, 19 de junho de 2018
Trânsito
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Ninguém respeita a sinalização e a pressa no trânsito acaba em morte

Bruna Vieira e Katiana Ramos / 01 de julho de 2016
Foto: Assuero Lima
O trajeto que Rayanne Gabrielle Lucena, 13, fazia todos os dias para ir à escola foi interrompido por volta das 6h30 da manhã de ontem. A menina atravessava a avenida Hilton Souto Maior, no Distrito Industrial de Mangabeira para chegar à escola. Atropelada, no sentido Mangabeira-Penha, ela foi arremessada ao canteiro central, onde morreu, antes mesmo da chegada do socorro. A sinalização no local indica que a velocidade máxima permitida é de 40 km/h, mas, na prática, os condutores excedem em mais de 100% a determinação. Com isso, o BPTran já atendeu 22 acidentes na via este ano, 2/3 de todos os casos no ano passado.

No início da Avenida Hilton Souto Maior, a sinalização indica que a velocidade é de 30 km/h. Nas proximidades do Supermercado Bem Mais, ela passa para 40 km/h. No trevo de Mangabeira, a indicação sobe para 50 km/h. há duas placas sinalizando. Nas proximidades do shopping, o limite volta a ser 40 km/h. Mais a frente há outra placa com a mesma indicação. Mas, o desrespeito é comum. Os moradores contaram que outra pessoa morreu atropelada no trecho em menos de quatro meses e que à noite, a via é usada para a prática de rachas.

Ao longo da avenida, as faixas de pedestres são muito distantes e nenhuma está em bom estado de conservação. Algumas já estão quase totalmente apagadas. A faixa mais próxima ao local onde Rayanne foi atropelada está no Fórum Desembargador Flósculo da Nóbrega, porém, ainda está distante.

Desobediência. O caminhoneiro Arlan da Silva, acredita que só a fiscalização eletrônica pode reduzir a estatística. “Os carros aqui passam com 80 km/h, até os ônibus. Ninguém respeita a velocidade não. Nem tem lombada, nem quebra-mola. Infelizmente, os motoristas não respeitam faixa, só a eletrônica, porque se ele não obedecer, será multado. Falta educação mesmo, não só condutor, mas, do pedestre também. O trânsito em Mangabeira parece o da Índia, uma desordem”, contou.

O aposentado Raimundo Nonato Cavalcanti faz caminhada diariamente na avenida, mas, não se sente seguro. “Vou pelo acostamento, mas, passa gente rasgando aqui. A gente anda com cuidado, tem que estar muito atento. Muitas crianças atravessam. Só melhora com a lombada eletrônica, porque a física, carros mais potentes conseguem passar sem reduzir. A outra tem a punição, a identificação da placa, ou diminui a velocidade ou é punido. Quando chega na Panorâmica, chega a 130 km/h, é um risco para ciclista, pedestre”, disse.

Falta de atenção. No ano passado, o Batalhão de Policiamento de Trânsito atendeu 33 acidentes na Hilton Souto Maior, porém, o número é bem maior, pois o órgão só registra os casos em que não há vítima fatal. A tenente Alecsandra de Pontes, explicou que a falta de atenção é a causa principal dos atropelamentos, mas, se a velocidade for compatível com a via, é possível reagir ou diminuir os danos do impacto. “A falta de atenção de ambas as partes e o excesso de velocidade causa os atropelamentos, porque respeitando o limite, dá tempo de frear ou de ter um resultado final menos agressivo”, afirmou.

Não adianta sinalizar, se quem está no volante não respeita a ordem. A regra de trânsito é que os maiores cuidem dos menores. Nos acidentes, pedestre, ciclista e motociclista sofrem danos maiores por estarem mais desprotegidos. “É a direção defensiva, pensando no que pode acontecer, dirigir por você e pelos outros. Temos que fazer um trabalho pesado de conscientização do motorista, que só pensa mais em si, na pressa e não vê que há um sistema, com pessoas, ciclovias. Para diminuir os índices de violência no trânsito, tem que ter a penalidade. O condutor não respeita, se não pesar no bolso”, ressaltou a tenente.

A reportagem tentou falar com o superintendente da Semob, Carlos Batinga, sobre possíveis correções da sinalização e fiscalização na via, mas não conseguiu o contato.

1.258 mortos no trânsito em 1 década

A morte de Rayane retrata uma realidade preocupante de crianças e adolescentes que morreram em acidentes de trânsito na Paraíba. De 2003 a 2013, foram 1.258 vítimas, com até 19 anos de idade. Os dados são do ‘Relatório Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil’, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), divulgado ontem.

A Paraíba foi o terceiro estado do Nordeste que apresentou o maior crescimento no número de vítimas, ficando apenas atrás do Maranhão e Bahia. Segundo o estudo, o percentual de crianças e adolescentes mortos em acidentes de transporte na Paraíba aumentou 55,7% no período analisado. O quantitativo de vítimas passou de 79, em 2003, para 123, em 2013.

Esse aumento coloca o Estado ainda em uma situação preocupante diante do ranking nacional. Considerando as taxas de óbitos por acidentes de transporte, a Paraíba saltou da 23ª colocação, em 2003, para o 12º lugar, em 2013. Neste último ano, a cada 100 mil pessoas, na faixa etária considerada pelo relatório, 9,2 morriam em decorrência de acidentes.

O estudo também trouxe dados sobre as mortes de crianças e adolescentes por capitais. Em João Pessoa, foram 318 crianças e adolescentes mortos no trânsito, de 2003 a 2013. Com esse saldo, a cidade foi a que apresentou o maior crescimento de mortes entre as capitais do Nordeste nesse período.

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