quinta, 19 de julho de 2018
Saúde
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Vírus zika controla inflamação no cérebro de bebês para manter hospedeiro vivo

Bruna Vieira com assessoria / 20 de setembro de 2016
Foto: Assuero Lima
Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo revelou que o vírus zika pode controlar a inflamação que causa no cérebro dos bebês com microcefalia para tentar preservar seu hospedeiro. Segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde, foram notificados 4.205 casos suspeitos de zika este ano. Mas, para a Vigilância Epidemiológica, os índices devem cair até novembro, período pouco chuvoso. Os resultados dos exames também demoram a chegar. Amostras enviadas ao Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará, há três meses ainda não tiveram retorno.

Os pesquisadores da USP perceberam que o vírus é capaz de modular a resposta imunológica no sistema nervoso central do hospedeiro, impedindo uma inflamação muito grande, que possa prejudicar o animal. Isso significa que o zika pode controlar a inflamação para preservar seu hospedeiro.

Um dos responsáveis pela pesquisa, o professor Jean Pierre Peron, integra a Rede Zika e o grupo de autores que publicou em maio, a evidência de que a infecção com zika na gestação pode causar má-formação congênita no cérebro. Ele ressalta que os dados são introdutórios. “O que vimos é que o cérebro dos filhotes de camundongos com microcefalia não estavam inflamados como esperávamos. Isso significa que o vírus de certa forma consegue controlar a inflamação no cérebro e que a microcefalia seria mais um resultado direto da ação do vírus, do que da destruição causada pela resposta imunológica local. Isso foi realizado pela análise da expressão gênica, mas ainda há muito a ser feito pelo nosso grupo. São dados muito preliminares e muita coisa ainda não podemos divulgar”, afirmou.

Zika causa danos no fim da gestação

Outro estudo realizado pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), com apoio da Fapesp, revelou que a infecção de gestantes com o vírus mesmo que no fim da gestação também causa risco para o desenvolvimento neurológico dos bebês.Predominava, até então, o paradigma de que a infecção seria preocupante somente se ocorresse no primeiro trimestre da gestação. No entanto, observamos danos cerebrais em quatro crianças cujas mães foram infectadas faltando entre duas e uma semana para o parto”, explicou Maurício Lacerda Nogueira, pesquisador.

Nessa pesquisa, foram acompanhadas 55 mulheres com diagnóstico de zika na gravidez no Hospital de Base de São José do Rio Preto, através de exames moleculares PCR. Em quatro crianças, exames de imagem detectaram lesões no sistema nervoso central e no momento do parto, foi verificado o vírus ativo na urina e sangue dos recém-nascidos, o que confirmaria a transmissão da mãe para o feto. “Esses bebês nasceram com peso e altura normal, não tinham microcefalia ou qualquer outro sintoma da doença. As lesões teriam passado despercebidas pelos profissionais de saúde se as mães não fizessem parte de um grupo de estudo”, comentou Maurício.

Uma das lesões observadas foi a vasculopatia lentículo-estriada (estrias ou manchas visíveis por meio de ultrassom), que não está associada a manifestações graves em outras situações estudadas. No entanto, as implicações no desenvolvimento neurocognitivo ainda são desconhecidas. “Agora, pretendemos acompanhar o desenvolvimento dos bebês durante alguns anos e observar se haverá algum prejuízo. Essa descoberta revela mais um espectro da doença e a torna ainda mais complexa. Não existem apenas os casos dramáticos de microcefalia, mas também outras manifestações menos graves, que precisam ainda ser melhor compreendidas”, declarou o professor.

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