quarta, 20 de junho de 2018
Saúde
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Vacinar é preciso, mas conviver com as reações da imunização é difícil e preocupa

Ana Daniela Aragão / 16 de maio de 2016
Foto: Arquivo pessoal e Divulgação
Há uma semana, a nutricionista Cyllane Vasconcelos levou seu filho, Pedro Vasconcelos, 3 anos, para tomar a vacina da gripe em João Pessoa. Mas o que ela não esperava era que horas depois, ele tivesse febre alta e convulsões. Ela ficou assustada e preocupada. Porém, o alergologista e imunologista Roberto Lacerda disse que “o que mais salva vidas é água potável, saneamento básico e vacinas”. Ele destacou a extrema importância da imunização quando a saúde do ser humano está em jogo. Segundo o especialista, os benefícios de todas as vacinas são maiores que os riscos e que estas reações são mais normais do que parecem. Algumas vacinas precisam de mais de uma dose e de um reforço, outras são apenas para gestantes e, em cada fase da vida, existirão vacinas para se tomar. Por isso, uma pessoa pode chegar a tomar 14 delas e levar 55 furadas ao longo da vida.

Roberto Lacerda declarou que as vacinas evoluíram nos últimos anos. “Hoje temos de 20 a 25 doenças que são evitadas por vacinas”. Ele destacou que muitas dessas doenças, há 10 anos haviam dizimado grande parte da população brasileira e que hoje, isto já não existe devido à vacinação em massa. “O Brasil é um exemplo em questão de imunização, as vacinas dos postos são de boa qualidade”, mencionou.

Em contrapartida, parte da população não conhece esta realidade e espalham informações equivocadas, segundo o imunologista. “Falta conhecimento dos detalhes, eles não sabem o quanto uma vacina é seguro. De tal forma, isto se torna um problema a exemplo do que aconteceu no Japão anos atrás. O país deixou de fazer a vacina contra coqueluche porque crianças apresentaram febre, irritabilidade e convulsões. Depois de 10 anos, a doença voltou com muita densidade e muitos morreram. Com isso, voltaram a produzir novamente. Isto mostra o quanto às vacinas são seguras e eficazes”, disse.

Ele relembrou que há 15 anos, o Brasil passou por uma série de mortes devido à meningite e que hoje, o cenário é totalmente diferente. “Muitas crianças morreram e aquelas que sobreviveram ficaram com sequelas graves como epilepsia, retardo mental, surdes, etc. Hoje isto já está quase acabado. As crianças tomam gratuitamente nos primeiros meses de vida. A mesma coisa com o sarampo” declarou. A Campanha nacional de vacina contra a Gripe vai ficar até o dia 20 deste mês. Segundo o Roberto o inverno está chegando e é importante a imunização contra esta doença porque ela costuma atacar mais nesta estação.

Reações e contraindicações

O alergologista afirmou que as reações às vacinas são leves e transitórias. “É algo comum. Normalmente é febre baixa, calor no local onde a vacina foi aplicada, dores musculares, etc, mas que desaparecem em 48 horas. Não é algo que persiste”, contou. Isto é normal por causa do processo de imunização do organismo. “Seja uma vacina de uma doença bacteriana ou viral, vai induzir o corpo a ter uma resposta a aquela bactéria ou vírus colocada na vacina para que quando o organismo tiver contato com a doença, a pessoa estará imune, com anticorpos prontos para destruí-la, por isso as reações. Uma pessoa que não toma a vacina, o corpo não possui o anticorpo e acaba ficando doente”, explicou.

Roberto Lacerda afirmou que raramente as reações são mais graves. Isto vai depender da vacina também. “Há aquelas que como a coqueluche que causa convulsões, mas a pessoa fica sem sequelas. Já a febre amarela pode matar porque pode causar destruição do tecido hepático. Mas é extremamente raro também”, disse.

Quanto à contraindicações, o imunologista explicou que cada vacina pode ter a sua. “A da gripe é contraindicado pra quem ter alergia a ovo por ser produzida com proteínas do alimento. Mas mesmo assim, há como a pessoa alérgica tomá-la. Basta ir num hospital e o médico vai aplicar de forma lenta e aos poucos porque a quantidade de proteínas é insignificante. A vacina contra tuberculose não deve ser aplicada em crianças com menos de 2 kg. Quem está passando por quimioterapia, radioterapia e estiver com a fase na imunidade baixa, devem esperar para tomar qualquer vacina. Também é importante salientar que, em geral, o que é contraindicado é a pessoa que vai tomar a vacina estar com uma doença grave, com febre alta, etc”, explicou.

Susto

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A nutricionista Cylanne Vasconcelos não esperava as reações que o filho Pedro Vasconcelos de 3 anos teve após tomar a vacina da gripe na última segunda-feira. Horas depois, ele teve febre alta e algumas convulsões. “Quando a febre apareceu, dei um remédio e ela passou. Só que um tempo depois, ele ficou com febre novamente, 38 graus. Fiquei com ele na cama e meia hora depois ele estava mais quente, foi quando deu 39.3 graus de febre. Levei pro chuveiro e ele começou a ter uma convulsão bem feia”, contou. Os outros dois filhos mais velhos de Cylanne, não tiveram nenhuma reação.

Ele foi levado ao hospital, e não foi diagnosticado infecção nos órgãos. “O que foi constatado é que houve uma inflamação através do exame da proteína c reativa. O corpo reagiu à vacina e não tinha remédio que baixasse a febre. A gente fica sem saber se vacina ou se não vacina porque a gente pensa que é pra proteger nosso filho e entrega uma criança saudável e depois recebe com o futuro incerto. Ficamos com medo”, contou.

Quatro dias depois da vacinação, Pedro ainda estava internado, mas havia melhorado um pouco. “Ele voltou a ter febre, mas já com menos frequência. Ele vomitou algumas vezes e está com umas dores nas pernas. O pediatra dele acredita que seja por causa da febre. Mas ele vai passar por exames neurológicos. O tratamento está sendo à base de antibióticos”, disse a mãe. Cyllane afirmou que não vai mais vacinar o Pedro. “Procurarei outros métodos. Não confio mais. Não quero me responsabilizar. Porque se meu filho ficar com uma doença grave, a culpa será minha que o levei. Eu não era contra vacinas, mas disseram que a única contraindicação da vacina da gripe era alergia a ovo, coisa que ele não tem. Então por que ele teve essa reação?”, lamentou.

O laudo confirmou que a febre e as convulsões se deram por causa da vacina. Diante disto, Cylanne disse que vai entrar com uma ação judicial e já realizou uma notificação na Secretaria de Saúde do Município. “Ainda não liberam o prontuário médico. Eles têm 10 dias para liberar. Por causa das duas convulsões, o neurologista disse que ele terá que fazer tratamento neurológico com remédio controlado por três anos para ele não ter mais convulsões”, contou.

Um caso parecido aconteceu com Adriel João Correia, 6 anos. Os pais moram em João Pessoa e estão lutando para conseguir o tratamento do filho que se intoxicou com dois componentes de uma vacina. Segundo os pais, os componentes foram metais pesados. Isto fez com que o menino virasse autista. O caso deles foi mostrado pela TV Record, no programa Domingo Show, que organizou um leilão online para arrecadar dinheiro para o tratamento.

Reação

O pediatra João Medeiros informou que estas reações são normais. “O organismo realmente reage a vacina. E isto acontece em forma de febre, moleza, etc. Algumas crianças tem tendência a ter convulsões”, disse. Ele ainda explicou que o exame que o Pedro realizou é considerado um marcador inflamatório. “É o corpo passando pelo processo de imunização”, finalizou.

Vacina contra o HPV para todos

Segundo o especialista, a vacina contra o vírus HPV deveria ser aplicada, além das meninas entre 9 e 13 anos, em  mulheres quanto em homens. “O que acontece é que a corrupção do Brasil não permite isto e só restringe a vacinação um grupo. Daqui a alguns anos, as meninas estarão protegidas contra o câncer do colo de útero, da vulva, da vagina, cordas vocais, etc. Mas o direito deveria ser de todos”, contou.

O mito dos metais pesados

Há vários textos na internet alertando sobre a presença de metais pesados como mercúrio, chumbo e alumínio em vacinas. O coordenador do Ceatox, Emerson ferreira, afirmou que a intoxicação por metais pesados causam sérios problemas à saúde. “A gente vai ingerindo os metais aos poucos. É bebendo água com alumínio da panela onde cozinhamos, é se alimentando de peixes que estavam em rios contaminados, etc. Em poucas quantidades, os danos são a longo prazo. O principal são alterações neurológicas, neurodegenerativa e alguns metais trazem alterações renais como o chumbo e o mercúrio”, disse.

Mas, segundo Roberto Lacerda, as primeiras vacinas tinham em sua composição o mercúrio e outros metais pesados, mas era usado como conservante para garantir a qualidade da vacina. “Hoje são poucas que precisam ter em suas composições e quando tem são em níveis mínimos. Com a evolução, não foi preciso mais. Quanto ao caso de metais pesados provocarem autismo, a própria Organização Mundial da Saúde não confirmou a relação”, disse.

“Às vezes pode se confundir a reação vacinal com outro quadro em que a criança já estava. Tem que ver se a criança já não estava com um vírus incubado antes de tomar a vacina. É preciso levar em conta o grau de imunidade da criança, se for baixo, podem acontecer convulsões e febre alta depois da vacina”. Adriana Karla Nóbrega. Pediatra. 



Revolta da vacina

Em 1904, aconteceu no Rio de Janeiro, na época, capital do Brasil, uma manifestação popular contra a campanha de vacinação obrigatória. Ela foi realizada pelo então presidente, Rodrigues Alves, para combater dezenas de doenças que se proliferaram na população, como Tifo, Febre Amarela, Peste Bubônica, Varíola, entre outras enfermidades. Ela foi comandada pelo médico sanitarista Dr. Oswaldo Cruz. Os agentes de saúde chegavam às casas das pessoas para aplicar as vacinas, a maioria era pobre e desinformada, não conheciam o funcionamento de uma vacina e seus efeitos positivos. Logo, começaram a revolta e não queriam tomar a vacina. Prédios públicos e lojas foram atacados e depredados e trilhos foram retirados e bondes.

 

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