domingo, 19 de novembro de 2017
Saúde
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Superbactérias: médicos falam em futuro assustador sem remédios capaz de matá-las

Bruna Vieira / 11 de março de 2016
Foto: Ilustração
A resistência antimicrobiana é uma ameaça grave à saúde mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde. O relatório da OMS aponta que isso está acontecendo agora, não é mais uma previsão para o futuro. As causas são o uso indiscriminado dos antibióticos, inclusive na criação de animais. Para especialista, é preciso parcimônia na prescrição e uso das substâncias, por médicos e pacientes, porque o prognóstico é assustador: não haverá remédio capaz de matar as bactérias.

A enzima Klebsiella pneumoniae carbapenemase é apontada como grande causadora de infecções hospitalares, em recém-nascidos, pacientes de UTI e septicemia (infecções da corrente sanguínea), de acordo com a OMS. A KPC faz com que as bactérias adquiram mais resistência aos antibióticos, podendo inativar a ação da penicilina. Ela também pode atuar como bactéria oportunista, provocando infecções em pessoas com a saúde debilitada. A preocupação é tanto pela redução nas opções terapêuticas, quanto pelo aumento da mortalidade. Em nota técnica de 2013, a Anvisa indicou que entre 40 e 50% dos casos de resistência em enterobactérias, a morte ocorria em 30 dias.

O diretor-adjunto para a Segurança de Saúde da OMS, Keiji Fukuda, alerta: “O mundo caminha para uma era pós-antibiótico, em que infecções comuns e pequenas lesões que foram tratáveis por décadas podem voltar a matar. A menos que tomemos ações para melhorar os esforços para prevenir infecções e também mudar a forma de produzir, prescrever e usar antibióticos, as implicações serão devastadoras”.

Mortos em 2015

Doenças bacterianas

469 por septicemia

57 por diarréia

1.383 com pneumonia

236 com infecções urinárias

90 com tuberculose

Óbitos não especificados 

Segundo a SES, nas infecções por KPC, as causas de óbito não são especificadas. “Quando auditamos as declarações de óbito observamos como diagnóstico da causa morte: sepse, infecção nosocomial ou como uma infecção relacionada ao sistema no qual o paciente possui a referida infecção, dependendo de cada caso”, explicou Ana Campanile, coordenadora da Comissão Estadual de Controle de Infecção em Serviços de Saúde/SES-PB.

Para a coordenadora da Comissão Estadual de Controle de Infecção em Serviços de Saúde da SES, Ana Campanile, o aumento nos casos de KPC são resultado da maior atuação das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar. “Entre alguns anos ocorreu um aumento no número de notificações. Isto não significa que ocorreram surtos pelas instituições de saúde, mas diz que as CCIHs dos estabelecimentos hospitalares estão mais atuantes”, disse.

Mais vulneráveis

“Os mais vulneráveis à KPC são pacientes com comorbidades, transplantados, neutropênicos, em ventilação mecânica e com longa de internação em UTI por apresentarem risco aumentado de infecção ou colonização para bactérias multirresistentes”, Ana Campanile. Coordenadora da Ceciss/SES.

Elas estão em todo lugar

A infectologista Helena Germóglio explicou que qualquer bactéria pode se tornar resistente. O principal mecanismo que leva a isso é o uso indiscriminado de antimicrobianos.

Ou com receita ou por automedicação. “Existe o uso terapêutico e profilático. Há casos de cirurgia em que só é necessário uma dose e mesmo assim, depois do ato a pessoa fica tomando por vários dias”, disse.

As superbactérias estão em todos os lugares, mas os hospitais oferecem risco de contaminação para os pacientes que já estão com a imunidade baixa. “Pacientes de TTI, em área crítica, gravemente enfermos, são submetidos a vários procedimentos invasivos, estão mais debilitados e a possibilidade de adquirir infecção é maior”, ressaltou a médica.

Gripe? A especialista lembrou que antibióticos não curam viroses e gripes e não devem ser tomados nesses casos. Interromper o tratamento também é tão perigoso quanto o uso indiscriminado. “Está mais difícil comprar antibiótico sem receita, mas às vezes, as pessoas aproveitam o que sobrou de quem já tomou. E tem a prescrição indevida. A classe médica não diz, mas faz. Não concordo, só se for realmente necessária. Os médicos tem que se atualizarem e sempre atentar que o antibiótico não é tudo. As boas práticas são fundamentais. É preciso usar com parcimônia, classe médica e pacientes”, afirmou.

Como prevenir

▶ Lavar as mãos e evitar contato próximo com pessoas doentes;

▶ Usar preservativos;

▶ Manter as vacinas em dia;

▶ Usar antibióticos apenas quando prescritos por um médico;

▶ Completar o período de prescrição, mesmo que se sinta melhor;

▶ Nunca compartilhar ou usar antibióticos que sobraram.

Médicos:

▶ Reforçar a prevenção e controle de infecção;

▶ Única prescrição e somente quando for realmente necessário;

▶ Prescrever o antibiótico certo para tratar a doença.

"Daqui a uns anos as pessoas não vão morrer de outra coisa que não de infecção, hoje já existem infecções que não têm mais remédio para tratar. Isso é gravíssimo. Vai voltar a ser como era antes da descoberta da penicilina. Antes não tinha, hoje não tem mais. Os laboratórios não querem mais investir, são 10 anos de pesquisa e quando lança no mercado já tem resistência, as bactérias estão mais sabidas que o homem", Helena Germóglio, Infectologista.

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