quarta, 23 de agosto de 2017
Saúde
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O homem e o rato: uso de cobaias gera polêmica, mas é essencial para pesquisas

Bruna Vieira / 03 de agosto de 2015
Foto: Antônio Ronaldo
Os medicamentos demoram mais de 20 anos para serem lançados no mercado. A pesquisa exaustiva precisa comprovar, além da eficácia do remédio, a segurança dos usuários. Para isso, há o uso de cobaias, um tema polêmico. Assim, inúmeros testes são realizados em animais e, depois, aplicados em humanos.

Os pesquisadores asseguram que os bichos são tratados de forma a minimizar o sofrimento, mas todos são eutanasiados durante ou ao final da pesquisa.

Para os estudiosos, é uma ação necessária para o desenvolvimento da ciência em prol da saúde humana. Patrick Teixeira tem mucopolissacaridose, uma doença degenerativa. Ele foi um dos vinte e um pacientes que testaram o medicamento que já está em uso. “Participar dos testes foi uma luz no fim do túnel”, disse.

Um foi forçado, o outro quis

Ratos são produzidos para experimentos científicos. O jovem Patrick Teixeira se ofereceu para testar tratamento para a doença que lhe aflige

Patrick foi voluntário

A mucopolissacaridose é uma doença degenerativa incurável. Everton Dornelles, pai de Patrick Teixeira, um dos voluntários nos testes, contou que o medicamento que retarda o processo foi testado em vários países e já foi aprovado nos Estados Unidos. No Brasil, falta o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “O Patrick entrou na última etapa, em 2012, quando o processo de liberar medicação depende da aprovação em vários países. É praxe. Terminou há dois meses. Foram 21 brasileiros, 18 em Porto Alegre e 3 em Campina Grande”, revelou.

Everton reconhece que foi um passo importante, mas esperava resultados mais positivos. “Ele ainda recebe a medicação, tem direito. Se não fosse eficaz, não teria sido aprovada, mas eu esperava mais. A doença progrediu, a audição e visão dele diminuíram. Apesar de não ter interrompido o avanço da doença, ele poderia estar pior se não tivesse fazendo o tratamento. Antes, não havia nenhum tipo de remédio para a MPS”, disse.

O pai ressalta a luta do filho por todos os que têm MPS. “Ele está sempre vencendo batalhas e foi ele que conseguiu que os testes fossem na Paraíba. Ele começou no Rio Grande do Sul, com mais 11 pacientes. Ele brigou até que o número aumentasse para 18 e depois conseguiu as vagas para Campina Grande. A Conep tinha negado e voltou atrás”, disse o pai.

Custo inviabiliza comércio 

No Rio grande do Sul, os testes ocorreram no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, da Universidade Federal. Andressa Federhen, cordenadora de pesquisa clínica do Serviço de Genética Médica, explicou que o medicamento poderia ser comercializado, pois tem registro na Anvisa, mas é tão caro que deve ser reivindicado judicialmente.

“No Brasil, há medicamento aprovado pela Anvisa para tratar quatro tipos de mucopolissacaridose: a MPS I, a MPS II, a MPS VI e, mais recentemente, a MPS IV-A (ou Síndrome de Morquio). Não é viável que o paciente compre este medicamento, pois o tratamento é para toda a vida”, explicou.

Segundo a pesquisadora, dentre as doenças raras que têm tratamento com registro na Anvisa, somente o medicamento para tratar a doença de Gaucher é fornecido pelo SUS. “O medicamento para MPS é chamado de órfão, é de alto custo, importado, produzido por engenharia genética, e não é possível ser adquirido em farmácias. Este estudo resultou na aprovação da enzima recombinante elosulfase-alfa (nome comercial Vimizin), que mostrou ser segura e eficaz na melhora da resistência física dos pacientes, aumento estatisticamente significativo na distância percorrida pelos pacientes no teste de caminhada de seis minutos e na redução dos GAGs (enzima glicosaminoglicanos) eliminados na urina”, comentou Andressa sobre os testes.

No total, 176 pacientes com MPS IV-A participaram do ensaio clínico de fase III, em 17 países. Eles tinham entre 5 e 57 anos e foram divididos em três gurpos. “Um grupo recebia a enzima elosulfase-alfa semanalmente, outro recebia em uma semana e placebo na outra e o outro grupo recebia placebo sempre. O estudo era duplo-cego, o que significa que nem paciente, nem pesquisador sabiam quem estava em cada grupo”, concluiu.

Um milagre aconteceu

Durante o tratamento Patrick recebeu uma notícia ruim. Estava com compressão medular. “É uma doença que causa vários estragos. A compressão faz a pessoa perder os movimentos, dá dor de cabeça e nas costas e a cirurgia é uma das causas de mortalidade. Raramente tem sucesso. São poucos os que se salvam e quando dá certo, podem ficar paraplégicos ou intubado pelo resto da vida, porque machuca a medula”, disse o pai.

“Quando o médico disse que ele não mexeria mais a cabeça se fizesse a cirurgia eu desabei. Patrick quem me deu forças, mas ele se abalou quando perdeu uma amiga que participou da pesquisa. Não teve relação com os testes, ela fez a cirurgia de compressão e ficou tetraplégica, entrou em depressão e morreu um mês depois. Depois, morreu outro em Recife”, contou.

Com tantas sequelas, a família decidiu não fazer a cirurgia, porém, foram alertados de que a medula poderia estrangular a qualquer momento. Everton acredita que um milagre aconteceu. “Em junho recebemos um exame que apontava não ser necessário mais fazer cirurgia”, afirmou. de acordo com ele, a pesquisa custou R$ 1 milhão por ano por paciente. Uma vez por semana, Patrick recebe infusão de medicamento.

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