quinta, 24 de maio de 2018
Saúde
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Metade dos brasileiros terá alergias até 2050

Lucilene Meireles / 11 de julho de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Você sempre comeu camarão e nunca teve problemas. De repente, o alimento predileto se torna um vilão. É a famosa alergia que, em alguns casos, surge apenas na fase adulta. A Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai) aponta que 30% dos brasileiros sofrem com algum tipo de alergia, das quais a rinite é a mais comum. Há uma década, eram 20%. Em 2050, segundo previsão da Organização Mundial de Saúde (OMS), metade dos brasileiros sofrerá com o mal que, em alguns casos, pode levar à morte.

A funcionária pública Daniella Vital nunca teve alterações respiratórias na infância. As crises de espirros, coriza, coceira no nariz começaram quando tinha 20 anos. O teste alérgico confirmou que o ácaro é o causador dos sintomas e ela iniciou tratamento com um alergista. Hoje, aos 26, sempre busca o especialista quando tem crises. “Trabalho com processos antigos, poeira, mofo. Além disso, as crises acontecem quando há mudança de tempo. Recentemente, tive que ir para uma urgência”, relatou.

Mas, o que será que acontece com o corpo de uma pessoa saudável que, de uma hora para outra, reage de forma exagerada quando exposta a um alimento, medicamento ou até mesmo àquela poeira comum de casa?

O alergista e imunologista Roberto Lacerda explicou que a alergia pode acometer qualquer pessoa, mesmo após várias exposições a uma substância, como cosméticos, poeira doméstica, medicamentos, crustáceos. “De uma hora para outra, o sistema imunológico vê como um agressor. A Medicina explica que é um erro de interpretação do organismo”, explicou, lembrando que as alergias geralmente começam na infância, principalmente as respiratórias.

Nesse estalo, começa a produção de anticorpos, os linfócitos, que são produzidos pela medula vertebral e liberados na corrente sanguínea. São eles que podem causar reações alérgicas que vão de coceira à morte. O médico ressaltou que picadas de insetos como abelhas e vespas podem desencadear um choque anafilático e levar ao óbito.

“O sistema imunológico interpreta erradamente como agressor um produto que não é agressivo para a maioria das pessoas. De forma errada, produz anticorpos contra a substância. Não há nenhuma relação com imunidade baixa, que é quando o sistema imunológico não produz anticorpos suficientes. É uma resposta imunológica exagerada, uma predisposição genética que, de repente, é acordada”. Roberto Lacerda, alergista e imunologista.



Os vilões

Entre os medicamentos, os que mais causam reações são os analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos, contrastes para procedimentos radiológicos. Até o látex das luvas de borracha pode causar reações alérgicas.

As reações alérgicas respiratórias, que incluem sinusite alérgica, asma, rinite alérgica, se caracterizam por crises de tosse, cansaço, chiado, falta de ar, coriza, espirros, coceira no nariz e olhos, dor na face, obstrução nasal que simulam uma gripe.

“No caso da rinite alérgica, a sensação é de estar tendo gripes e resfriados de repetição. No Brasil, estas alergias são causadas por ácaros da poeira domiciliar, mofo, fungos, além dos alérgenos do gato, cachorro e barata”, destacou Roberto Lacerda.

Prever alergias é impossível

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Não há como prever o surgimento de uma alergia, conforme a alergista Renata Cerqueira. Ela reforçou que algumas pessoas nascem predispostas e, na maioria das vezes, o problema se desenvolve logo na infância. Outras pessoas se sensibilizam ao longo da vida. No caso da rinite, segundo ela, pode haver remissão, mas há situações em que a pessoa tem o quadro sempre e outras em que há remissão e depois os sintomas voltam.

Em relação a medicamentos, ela disse que não é preciso ter predisposição genética. “Uma pessoa pode tomar dipirona a vida toda e, de uma hora para outra desenvolver alergia. É uma alteração que ocorre no organismo. O problema é enzimático e a alteração se dá durante o metabolismo da droga”, esclareceu.

Neste caso, ela afirmou que, assim como a alergia surgiu de repente, não há como prever se o paciente pode ficar voltar a tomar o medicamento sem problema, mas na maioria das vezes isso não acontece. Alérgicos a dipirona devem evitar, além da medicação, aspirina e antiinflamatórios.

“A exposição, desde a infância, aos alérgenos ambientais, como ácaro, pêlo de animal, pode desencadear o problema na fase adulta. De forma geral, quem tem predisposição, muito provavelmente, num momento ou outro, vai desenvolver”. Renata Cerqueira, alergista.



Tratamento e vacinas 

Nas reações leves e moderadas, o paciente tem que usar o kit urgência, com antihistamínico e corticóide. Devem ser ingeridos imediatamente após o início da reação. Em casos moderados e graves, o que salva a vida é a injeção de adrenalina que é aplicada pelo próprio paciente, nos primeiros 30 minutos.

“A maioria das reações anafiláticas fatais ocorre porque a adrenalina não é feita dentro desse tempo”, alertou o médico. Ele observou que, no Brasil, é possível adquirir caneta com adrenalina autoinjetável. O médico acrescentou que, quem tem asma, deve utilizar o broncodilatador Aerolin, fornecido gratuitamente nas farmácias.

Existem ainda vacinas para casos de alergia respiratória e a veneno de abelha, vespa, formiga e até pernilongo, além do tratamento com outros medicamentos. As vacinas alergênicas, segundo ele, têm bons resultados na maioria dos pacientes, reduzindo a frequência da intensidade das crises e a necessidade do uso frequente de medicamentos.

Já nos casos de alergia alimentar e de medicamentos, não existe vacina. “Para criança com alergia ao leite de vaca que não desapareceu após seis anos de idade, existe o tratamento de dessensibilização: uma vez por semana, ela vai para o hospital e é administrado o leite de vaca diluído em pequenas quantidade, sob supervisão médica. Depois de 8 a 12 semanas, se consegue fazer com que uma criança que tinha alergia grave possa ingerir um copo de leite diariamente”, relatou. Funciona em torno de 80% dos casos e pode ser feito com outros alimentos, como o trigo, soja e milho. 

“Quem tem deficiência de imunidade tem predisposição a infecções de repetição, mas aí é um defeito na imunidade. A alergia está relacionada com o sistema imunológico, porque é uma reação exacerbada a determinado alérgeno quando se é exposto a ele. Há uma sensibilização. Essa resposta exagerada se traduz nos sintomas da alergia, coceira no nariz, obstrução”. Renata Cerqueira, alergista.



Tratamento pelo SUS

O SUS oferece tratamento especializado para pacientes cuja alergia não responde aos cuidados na Atenção Básica. Cada município é responsável por encaminhar seus pacientes para os cuidados específicos. Em João Pessoa, além dos Cais de Jaguaribe, Cristo, Mangabeira. os pacientes são direcionados a clínicas conveniadas, mas tudo começa na unidade de saúde da família de cada bairro.

A diretora multiprofissional do Cais de Jaguaribe, Luana Vilante de Melo, disse que o local conta com um alergologista que atende três vezes por semana, pela manhã. São 16 atendimentos em cada um desses dias, sendo 12 consultas e quatro retornos para pessoas a partir de 13 anos.

“Alguns problemas alérgicos são tratados nos 191  PSFs de João Pessoa. Só se encaminha para tratamento especializado o que não se resolve na Atenção Básica”, esclareceu Andressa Cavalcante, gerente de Atenção Especializada da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa.

Teste alérgico

O teste alérgico é fundamental para diagnosticar alergia a alimento, medicamento, ácaro. É colocada uma gota do alérgeno no antebraço do paciente e feito um furinho com material descartável. O diagnóstico sai em 15 minutos. Quando a pessoa é alérgica, forma-se uma pápula no local, mostrando que o paciente tem anticorpos contra o alérgeno testado. Não há limitação de idade, mas a interpretação deve ser feita por um especialista em alergia para não haver erros.

Os alérgicos

6% crianças têm alergia alimentar

5% delas ao leite de vaca

3% dos adultos têm algum tipo de alergia alimentar

5% a 10% dos adultos e crianças vão desenvolver alguma alergia

Como acontece a alergia

O paciente tem contato com o alérgeno (ácaro via inalatória, medicamento oral, alimento);

Pelas células da pele, o sistema imunológico (linfócitos) reconhece como alérgeno;

As imunoglobulinas (IgE), que são anticorpos, se ligam ao alérgeno;

Ocorre a liberação de mastócitos na pele e basófilos no sangue;

Essas substâncias vão causar coceira, vermelhidão, urticária e angioedema (inchaço nos lábios, pálpebras).

Sintomas da reação alérgica no corpo

Pulmão – Crise de tosse, cansaço, falta de ar, broncoespasmo.

Nariz – Inflamação da mucosa nasal, espirros, coceira, obstrução;

Olho – Coceira, vermelhidão, conjuntivive alérgica;

Coração – Vasodilatação, queda da pressão arterial, hipotensão, arritmia, parada cardiorrespiratória;

Sistema nervoso central – Cefaleia, perda de consciência, convulsão, desmaio;

Sistema gastrointestinal – Diarreia, vômito, dor abdominal;

Laringe – Tosse, rouquidão, edema da glote (fecha a garganta), insuficiência respiratória, que pode evoluir para a morte.

Informações nos rótulos dos produtos

A partir de 3 de julho, os rótulos de alimentos que podem causar alergias devem trazer a informação de que o produto contém substâncias alérgenas. A determinação é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A norma foi publicada em julho de 2015 e foi dado o prazo de um ano para que os fabricantes pudessem se adequar.

Os rótulos terão que informar a existência de 17 alimentos: trigo (centeio, cevada, aveia e derivados); crustáceos; ovos; peixes; amendoim; soja; leite de todos os mamíferos; amêndoa; avelã; castanha de caju; castanha do Pará; macadâmia; nozes; pecã; pistaches; pinoli; castanhas, látex natural.

“É uma evolução, mas estamos atrasados 20 anos em relação aos EUA. Vai facilitar o consumo correto de alimentos industrializados para parte da população que é alérgica”, avaliou o alergista Roberto Lacerda.

 

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