domingo, 19 de novembro de 2017
Saúde
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Médicos cruzam os braços e deixam mais de 200 pacientes sem atendimento por dia em JP

Bruna Vieira / 14 de março de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Os médicos da rede municipal de saúde paralisaram o atendimento nesta segunda-feira (14), para procedimentos eletivos. Urgência e emergência não foram prejudicados. Nos quatro hospitais da rede própria, pacientes de ambulatório que tinham consultas ou cirurgias voltaram para casa sem o atendimento. São 500 médicos em João Pessoa, que pedem melhores condições de trabalho e a permanência da gratificação de desempenho de produção mesmo após a aposentadoria. Só no Santa Isabel, mais de 200 pessoas estão ficando sem atendimento por dia. A assessoria da Prefeitura informou que há 10 meses está negociando com os médicos e atendendo às reivindicações.

A aposentada Maria Clementina dos Santos, 78 viajou quase 70 km de Sapé para fazer um ecocardiograma no Hospital Santa Isabel. O exame é necessário para que ela faça a operação da vesícula, problema que a acompanha há três anos. “Sinto dores fortes, dá um pinicado. Não tenho medo da cirurgia. Quero é fazer logo e ficar boa. A gente espera para conseguir marcar, espera chegar o dia do exame e agora tem que esperar mais, porque remarcaram para abril. É o jeito”, desabafou.

A filha de Clementina, lamenta não ter tomado conhecimento da paralisação. “Passou na TV, mas, não vi. Acordamos 3h e teremos que esperar a manhã inteira até que o carro da prefeitura venha nos buscar. Sou faxineira e perdi um dia de serviço para nada. Um bocado de gente veio e voltou. Ninguém sabia. Ela já está doente e para piorar ainda quebrou o braço”, contou Josélia dos Santos.

José Gabriel da Silva Filho está preocupado com a demora na cirurgia de hemorróidas, que sequer foi remarcada. “Eu nem sei quando vou fazer. Disseram que me ligariam a partir de quarta-feira para dizer o dia. Perdi o dia de serviço e já nem posso pegar no pesado. Isso atrapalha o trabalho. As dores estou controlando com remédios, que eu compro sem poder. Mas, o pior é o sangramento”,  disse o agricultor de Pedras de Fogo.

Josefa Arcanjo viajou mais de uma hora com a filha. Ana Paula, 29, precisa de uma operação de vesícula. Antes, tinha consulta marcada, que ficou para 04 de abril. Ela está conformada. “Na cidade não tem médico especialista para ela. Tem que vir para cá. Se não deu certo hoje, a gente volta outro dia. É tudo na hora que Deus quer. Ela não toma remédio, mas, parou de sentir dor quando começou a dieta. Não deixo ela comer nada gorduroso”, disse a agricultora.

49% dos pacientes são do interior

O diretor administrativo do Hospital Santa Isabel, Rodrigo Guerra, informou que o estabelecimento não atende urgência e emergência e que por isso todos os atendimentos estão paralisados. São 17 especialidades médicas, com consultas e cirurgias pré-agendadas. O corpo clínico do hospital é de 180 médicos, que fazem 200 atendimentos por dia. “Infelizmente, quem vem de fora é quem mais sofre. Eles são 49% dos pacientes. Estamos atendendo a quase todos os municípios do Estado. São realizadas entre 17 e 20 cirurgias por dia. Mas, é a luta da classe por melhorias. Se a paralisação terminar amanhã (nesta terça) dá para diluir os pacientes prejudicados em uma semana. Se passar mais tempo, só poderemos realocar em abril”, afirmou.

Saúde Municipal

191 USF e UBS

4 Hospitais da rede própria

4 Cais

2 UPAs e  mais 1 em construção

Médicos querem melhores condições de trabalho

O presidente do Sindicato dos Médicos da Paraíba, Tarcísio Campos, informou que participam da paralisação os 500 médicos efetivos no município. Os que trabalham em PSF ainda não aderiram, portanto, ficaram sem atendimento, os pacientes dos hospitais de Valentina, Ortotrauma em Mangabeira, Santa Isabel e Instituto Cândida Vargas. O presidente do Sindicato dos Médicos do Estado da Paraíba, explicou que a principal pauta é pela gratificação. “Não é por aumento salarial. Quando se aposenta, o médico que trabalha 30 horas perde 40% do que ganha, que é a gratificação de R$ 3.500. Queremos pelo menos 70% desse valor. Para os 37 médicos de PSF, que recebem RS 27 mil é bem pior porque ele se aposenta com 20% desse valor”, declarou.

O Simed também pede melhorias nas condições de trabalho. “Em Mangabeira, por exemplo, o hospital encontra-se sucateado, equipamentos de anestesia sem revisão preventiva adequada, parte da recuperação anestésica sem monitores apropriados, falta monitoramento da área clínica médica, que só tem dois consultórios de atendimento. No Valentina, o problema é sério com a escala de médico, onde era para ter quatro, em alguns dias só tem dois plantonistas. A população não ameaça, por causa da alta demanda, já foi preciso acionar a polícia para acalmar os ânimos”, revelou Tarcísio.

O gerente do Simed, Renato Ribeiro, está preocupado com o prazo apertado. “Isso tudo já havia sido combinado e não foi cumprido pela Prefeitura. A paralisação será encerrada quando fizerem o combinado, que é enviar o projeto à Câmara. Depois do dia 2 não pode mais haver mudanças em lei, por causa do período eleitoral”, ressaltou.

PMJP garante negociação

A assessoria da Prefeitura informou que há 10 meses está negociando com os médicos e atendendo às reivindicações. O único pedido que ficou pendente foi o projeto para incorporar a gratificação na aposentadoria, pois, demanda mudança na legislação. Segundo a assessoria, o projeto foi concluído, assinado pelo prefeito, Luciano Cartaxo e enviado para a Câmara Municipal, que irá votar a matéria.

Em relação aos cardiologistas intervencionistas, a secretaria de comunicação disse que o assunto não foi tratado na reunião e que a pauta de reivindicação se limitou à incorporação da gratificação na aposentadoria. Em relação à demanda dos médicos hemodinamicistas, a Secretaria de Estado da saúde informou que os repasses de cardiologia estão sendo feitos para o município, responsável pela gestão plena.

As negociações

Abril de 2015: início da construção da proposta.

Outubro de 2015: apresentação da proposta.

Novembro de 2015: proposta aprovada.

Fevereiro de 2016: definiu que até 07/03 a alteração da Lei seria enviada à Câmara.

08/03/16: em assembleia, o Simed decidiu paralisar as atividades.

Hemodinamicistas aderiram

Os médicos hemodinamicistas ou cardiologistas intervencionistas informaram que também vão paralisar os procedimentos até a próxima sexta-feira, independente da negociação que ocorre hoje pela tarde com o secretário de saúde do município, Adalberto Fulgêncio. O Simed informou que é preciso uma contrapartida da prefeitura e do Estado de forma bipartite para que os profissionais continuem prestando serviço nos hospitais credenciados pelo SUS.

O representante da comissão, Bernardino Teixeira, assegurou que os serviços de urgência e emergência estão mantidos. “Desde 2007, a gente vem trabalhando sem qualquer reajuste. Quando desconta a tributação, o valor líquido por cateterisma chega a R$ 90,00. Não estamos pedindo ganho real, só a reposição das perdas do período, que é de 137,13%. Queremos também que seja estabelecido uma data base para que essa situação não se repita. Naquela época, o salário mínimo era R$ 380,00. Hoje é R$ 880,00. Desde 2012 apresentamos reivindicações sem resposta”, disse.

R$ 122,00 é pago aos médicos por cada cateterisma

R$ 289,77 é o valor corrigido pedido pelos médicos

 

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