quarta, 18 de outubro de 2017
Saúde
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Haja coração: pacientes cardíacos chegam a esperar até 3 anos por uma cirurgia pelo SUS

Bruna Vieira / 30 de julho de 2015
Foto: Nalva Figueiredo
A Clínica Dom Rodrigo é o Centro Estadual de Referência em cirurgia cardíaca na Paraíba. Há 15 anos sem reajuste na tabela SUS, o hospital ameaça romper o convênio com o setor público. O contrato vai até setembro. Se município e estado não complementarem o valor dos procedimentos, não será renovado. Cerca de 130 pessoas esperam cirurgias e podem morrer. É o caso de Almir do Nascimento, que aguarda há três anos.

O cardiologista e diretor da clínica, Francisco Santiago, informou que o problema é com o repasse. “É um problema sério de financiamento do serviço e a crise dos últimos dias aumentou sensivelmente os custos, pois os insumos estão atrelados ao dólar, o cateter é importado dos EUA. Pelo SUS tornou-se inviável para hospitais privados e filantrópicos. Estes últimos tem a vantagem de não pagarem impostos. Há um déficit de 50% na tabela, ou seja, o reajuste teria que ser de 100% para cobrir”, disse.

Segundo ele, em 2007, prometeram e não cumpriram a complementação, apenas para médico e anestesista, que recebem atrasado. “Os profissionais estão insatisfeitos. Estou ficando sem equipe. Há um processo no MPF”, disse.

“Estamos desesperados”

Almir do Nascimento Gomes, tem apenas 31 anos e há três está à espera de uma cirurgia. O entupimento arterial se agrava a cada dia, e caminhar dentro de casa já causa cansaço. Agricultor e com poucos recursos, vê as chances de sobreviver diminuírem. A família está desesperada. A tia, Maria Gomes, é quem cuida do sobrinho na Capital e não aguenta mais ver o sofrimento do rapaz.

Almir é do interior de Araçagi, onde está nesse momento. “Ele só falava no filho de 7 anos, que queria ver. Decidiu ir para lá até que o médico chame para a cirurgia. Não sei como ele está vivendo, só Deus! Só tenho medo de chegar notícia ruim! Estamos desesperados, ele chora tanto. Vendeu tudo que tinha, galinha, cabrito. Os pais não tem condições de pagar a cirurgia. Já chegou no limite de operar, mas o médico diz que é por etapar. Quem tem dinheiro passa na frente”, desabafou a tia.

A família é simples, a esposa vive da agricultura, benefícios sociais e ajuda de amigos. O marido da tia também não trabalha por problemas de saúde. “Eu faço bicos de lavadeira e minha filha mais velha vende cosméticos. Todo trocados era para pagar os exames caros. A outra só tem sete anos. Tenho medo de meu sobrinho se apagar, já teve desmaios. Ele não tem mais gosto na vida. Está cada dia pior e vai esperar mais um ano?”, questiona Maria.

Hospitais

Até 40 cirurgias cardíacas são realizadas na Dom Rodrigo por mês, que também faz outros procedimentos, como eletrofisiologia, hemodinâmica e angioplastia. “No restante do país gestores estaduais e municipais complementam a tabela SUS, na Paraíba não. Se não houver sinalização do governo até setembro, não renovaremos o contrato”, declarou o cardiologista. Segundo Francisco, existem apenas três locais credenciados para procedimentos cirúrgicos de coração no estado: João XXIII, em Campina Grande; Monte Sinai e Dom Rodrigo, em João Pessoa.

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