quarta, 21 de fevereiro de 2018
Saúde
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Dor só sabe quem sente e opioide usa quem precisa

Bruna Vieira com assessoria / 27 de junho de 2016
 

A morte do cantor Prince por overdose levantou a polêmica sobre o uso de opioides. A droga é utilizada para a dor aguda e crônica de intensidade moderada ou forte e compõe a anestesia geral. Nos Estados Unidos o abuso dessa substância é comum, já no Brasil, a dor é subtratada, segundo a Sociedade Brasileira para Estudos da Dor. Com isso, 60 milhões de pessoas convivem com a dor no país. Os pacientes têm medo de usar, é a chamada opiofobia. E os próprios médicos têm receio de prescrever, pois, um dos efeitos colaterais é a dependência. Na Paraíba, a principal indicação é para pacientes com câncer, mas, pode ser usado inclusive para tratamento de chikungunya.

Dor só sabe quem sente. Marlene Justino, 45 descobriu há três anos que estava com câncer de reto. A doença se agravou com metástase para o fígado e pulmões. Para aliviar a dor, ela começou a utilizar o Tramal (opioide fraco), mas há três semanas, o medicamento deixou de ser suficiente. “Uma cólica de trás para a frente da barriga e dor no reto. Insuportável, não conseguia nem sentar. Meus olhos ainda estão inchados de tanto que chorava. Passei a tomar morfina uma vez ao dia, depois duas. O médico disse que devo tomar sempre que doer muito. O efeito está durando seis horas. Em dois minutos a dor some. Não tenho medo de usar, não quero viver sentindo dor”, narrou a paciente.

Os efeitos negativos estão presentes. Marlene se queixa de esquecimento e tontura. Ela e o marido enfrentam uma viagem de mais de três horas de Tacima a João Pessoa e tem que enfrentar mais desafios. “Também tomo laxante, porque a passagem do reto está fechando. Minha mãe teve câncer no intestino. Meu marido era feirante e teve que deixar de trabalhar para cuidar de mim. E o remédio está faltando em Guarabira, temos que comprar e não sei se é caro. O benefício ainda está para sair. Fiz 56 sessões de quimioterapia em Jaú (SP) e aqui e mais 25 de radioterapia. Fiz novos exames e a metástase está crescendo. Tomo morfina para dormir, mas, quando chega a manhã, começa a dor de novo”, desabafou.

Restrição

O oncologista Rodrigo Maroja explicou que o opioide deve ser tomado com cuidado, mas se necessário deve ser prescrito. Além da dependência, o uso inadequado pode causar alterações no sistema nervoso e gastrointestinal. “É um receituário específico para analgesia e combate à dor moderada ou mais intensa que não responde aos anti-inflamatórios comuns. Principalmente em oncologia, não necessariamente em fase terminal, mas, em maior frequência. Se não cede a dor com analgésicos e corticóides, seria uma alternativa de tratamento pós medicação habitual”, afirmou.

Segundo o médico, há opioides maiores (mais fortes) e menores (mais fracos). “Morfina é um dos mais fortes. Tramadol e Codeína são menores. A prescrição é controlada. Também indicada para reumatologia e traumatismo agudo. A chikungunya causa muitas dores, mas, há tratamento base com corticóide mais eficiente. Em eventuais casos, pode se fazer uso de opioide menor por tempo pequeno. Hoje já tem anti-inflamatórios mais eficazes do que há 10 anos. Logo, não necessita o uso de opioide”, concluiu Rodrigo.

7,8 mg é o consumo por pessoa ao ano no Brasil.

Opiofobia

A SBDE informou que o medo da população de utilizar opioide faz com que milhões de pacientes sofram com dor e não são tratados ou são subtratados. É o que os especialistas chamam de opiofobia. “O brasileiro sofre dor por falta de prescrição adequada. Muitos enfermeiros têm reserva para aplicar estes medicamentos mesmo quando corretamente prescritos pelos médicos; e ainda existe relutância dos pacientes a serem medicados ainda que estejam sentindo dor moderada ou intensa”, declarou a diretoria.

O Brasil é um dos 10 países com menor prescrição, 25 vezes abaixo do indicado. A taxa ideal de consumo é de 192,9 mg ao ano por pessoa. Para a SBDE, pacientes sofrem desnecessariamente com dor por conta da opiofobia. “O objetivo é lutar para que os opioides sejam usados de modo correto e adequado no tratamento da dor, desmitificar os receios acerca da segurança, e destacar a necessidade de se discutir amplamente com todos os segmentos da sociedade brasileira estratégias para minorar o subtratamento da dor no país”, disse a instituição.

50% dos pacientes com câncer têm dor crônica e em mais de 1/3 a dor é intensa, segundo a SBDE.

Oncologia

Os opioides fracos e fortes são vendidos em farmácias, porém, somente coma receita especial amarela. Dalva Arnaud, oncologista do Hospital Napoleão Laureano lida diariamente com a dor dos pacientes. “Algumas farmácias não gostam de vender porque é um produto visão por dependentes químicos. As indicações de opioides são vastas, mas, na oncologia, de 60% a 80% dos pacientes vão usar um dia. Dos que chegam, 30% já precisam de morfina. Em doença avançada até 90% usam, dos mais fracos aos mais potentes. Não se pode deixar de prescrever, é desumano deixar uma pessoa com dor. O próprio câncer pode levar ao sofrimento, um tumor invadindo a parte óssea ou comprimindo estruturas viscerais. Em alguns casos, diminui-se a dose até tirar, em outros sabemos que não vai dar tempo”, disse a médica.

Segundo a especialista, existe uma escala de analgesia que deve ser cumprida. Inicialmente, aplicam-se analgésicos comuns, opioides fracos e por último os mais fortes. “Às vezes um paciente com tumor de cabeça e pescoço se sente bem com dipirona. O opioide leva em consideração a intensidade da dor e a estrutura que está pegando. Lesão que compromete a parte óssea é uma dor intensa e sabemos que o analgésico não vai chegar ao alívio da dor. Quem usa opioides mais fortes são pacientes mais avançados. Mas, onde há dor persistente e severa, tudo é passível. Na chikungunya às vezes precisa de um opioide fraco, o parâmetro da dor é quem diz, se necessário, pode usar”, ressaltou.

“O sofrimento é o ponto principal. No mundo de hoje não dá para deixar o paciente com dor. Tem o lado do paciente e do profissional. A gente sabe que ainda tem um percentual muito grande de colegas que tem receio de prescrever. O grande problema é achar que vai causar vício e não saber manejar os efeitos colaterais. E os pacientes de forma geral têm medo porque acha que a morfina é o último dos estágios” Dalva Arnaud, oncologista.

No Napoleão Laureano

1.865 ampolas de morfina 10 mg são consumidas por mês

77 comprimidos de morfina

76 unidades de codeína solução oral

opioide_grafico

Efeitos colaterais

Prisão de ventre

Alucinação

Cansaço

Falta de ar

Sonolência

Retenção urinária em homens idosos

Insuficiência respiratória que pode levar a óbito

Países desenvolvidos

O consumo de opioides é proporcional ao nível de desenvolvimento dos países: quanto maior o Índice de Desenvolvimento Humano, maior a utilização. Os Estados Unidos representam 56% de todo o consumo mundial, mesmo com apenas 5,1% da população. Desde janeiro, segundo Resolução da Anvisa, a dor (como efeito colateral do tratamento oncológico), passa a ter cobertura pelos planos de saúde, que devem fornecer ou reembolsar medicamentos, sejam analgésicos ou opioides.

Como os pacientes descrevem a dor

Desânimo: 40,4%

Angústia: 35,6%

Desespero: 17,5%

0,7% da população brasileira usou opioide de forma ilícita em 2002.

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