quinta, 24 de maio de 2018
Saúde
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Câncer no ovário: diagnóstico difícil, morte fácil

Bruna Vieira / 08 de Maio de 2016
Foto: Assuero Lima
 

O câncer de ovário é pouco frequente entre as mulheres, porém, muito perigoso. O diagnóstico é difícil. Em muitos casos os sintomas não aparecem, em outros somente quando o tumor já está em estado avançado, o que reduz as chances de cura. Além disso, ainda pode ser confundido com outras doenças, como a endometriose, o que retarda o tratamento correto. A estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é de 90 novos casos na Paraíba este ano, 1/3 deles em João Pessoa. Nos últimos seis anos foram 281 mortes. Neste domingo (8 de maio) é considerado o Dia Mundial do Câncer de Ovário, em alerta à saúde da mulher.

O Inca considera o câncer de ovário, o tumor ginecológico mais difícil de ser diagnosticado e como o de menor chance de cura, já que 75% deles só são diagnosticados em estágio avançado. Embora nenhum exame preventivo possa confirmar que é câncer, se houver alguma irregularidade no ovário, ela vai ser mostrada na ultrassonografia transvaginal feita anualmente pelas mulheres, o que requer maior atenção do médico. Apresentar algum sintoma, não significa que a mulher tem tumor no ovário, mas, indica que deve procurar orientação de um especialista. Por isso, é importante consultar o ginecologista regularmente.

4,38 taxa de incidência na Paraíba por 100 mil habitantes

6,41 taxa de incidência em João Pessoa por 100 mil habitantes

Causas: 

10%: fator genético ou familiar

90%: sem fator de risco conhecido

Diagnóstico errado

Mas, de encontro às estatísticas, é possível ter esperança e vencer a doença. Rosilanda da Silva viveu um drama aos 33 anos. Apesar de estar fora da faixa de idade de risco. “Eu jamais imaginei que poderia estar com câncer. Passei um ano com sangramento, fazia exames e nunca dava nada. Ficava feliz com o resultado, mas, isso só atrasava o tratamento. O médico dizia que era anemia. Quando procurei outra médica ela diagnosticou. Só pensei o pior, me desesperei”, revelou a dona de casa.

A viagem de Cruz do Espírito Santo a João Pessoa dura cerca de uma hora. Foi na capital que Rosilanda fez a cirurgia e três meses de sessão de radioterapia. Hoje está bem. “Retirei tudo, ovários, útero. Fiquei frustrada, porque achava que com a cirurgia ia ficar boa e ainda tive que fazer rádio mesmo depois da cirurgia. A cada seis meses faço revisão para verificar que está tudo bem. Tenho uma rotina normal, faço tudo em casa, cuido dos filhos. Jesus me curou, sempre testemunho isso. Quem estiver passando pela mesma coisa, tem que ter fé, porque Deus tudo pode”, narrou.

Rosilanda ainda chora ao lembrar o que viveu. As lágrimas hoje não são de tristeza e sim de vitória. “Nunca teve casos na família, não entendo o que causou isso. Todo dia oro e agradeço por ver meus filhos crescerem. Mas, houve um tempo em que não falava com ninguém sobre o assunto, me isolava. É preciso muita força e apoio familiar. Minha família veio toda de Pombal me ajudar. O que mudou na minha vida é que me sinto mais estressada, com insônia e calor além do normal. Nada mais”, revelou.

“No começo fiquei em choque, não acreditava. A família ficou aperreada. Quando caiu a ficha foi um desespero. Não comia, não dormia. Só pensava na minha filha de três anos, de deixá-la sem mãe. O maiorzinho tinha oito, já entendia o que estava acontecendo e se entristecia ao me ver” – Rosilanda da Silva, dona de casa.



ovário

Sintomas:

Fase inicial: sem sintomas.

Fase avançada: pressão, dor ou inchaço abdominal, na pelve, costas ou pernas, náusea, indigestão, gases, prisão de ventre ou diarréia, urinar com frequência, dificuldade de comer (saciedade rápida) e cansaço constante.

Menos freqüentes: sangramento vaginal e urinar com frequência.

Fatores que aumentam o risco:

Ter tido câncer de mama, útero ou colorretal

Nunca ter engravidado

Ingestão de estrogênio (sem progesterona) por mais de 10 anos (somente alguns estudos sugerem essa possibilidade)

Falta exame

O ginecologista Augusto César Gondim explica que é muito difícil diagnosticar o câncer de ovário. “É uma raridade. O mais comum é de colo de útero. São múltiplos fatores que podem desencadear: genético, ambiental e geográfico. Na Europa é onde há mais incidência, mas, ninguém sabe explicar porquê. Temos notado aumento por conta do envelhecimento da população. Normalmente ocorre depois dos 60 anos. Esporadicamente em mulheres mais jovens. Alguns estudos apontam que a alimentação influencia, mas, nada comprovado”, disse.

O médico informou que na maioria dos casos o prognóstico não é bom. “Não há sintomatologia e não tem exame que possa rastrear. A transvaginal não tem impacto na sobrevida, a taxa de morte tem se mantido a mesma, é uma neoplasia muito agressiva. O exame terá impacto naquelas que já se sabe ter alterações genéticas. O que a Sociedade de Ginecologia Oncológica Americana sugere é procurar um médico ao sentir dor e aumento abdominal por mais de uma semana. Mas, quando esses sintomas se manifestam, já está nos estágios finais”, declarou

Augusto César acredita que a ultrassom pode atrapalhar. “Vai detectar coisas que não são neoplasia. Não tem como retirar tecido para saber se é maligna. Não há biopsia antes da cirurgia. A maioria são lesões sólidas, massas ou cistos complexos benignos e a paciente é forçada a fazer a cirurgia sem necessidade, porque só quando operar vamos saber de fato. Quem tem endometriose tem mais risco de desenvolver tumor. Outro exame utilizado é a ressonância, mesmo assim não define. O CA 125, de sangue é utilizado para acompanhamento, porque também não detecta”, concluiu.

Todos esses exames vão apontar anormalidades no ovário e os cuidados serão definidos pelo médico. Embora o médico diga que não é possível realizar a biópsia, o Inca informa que pode-se retirar tecido ovariano por meio da laparoscopia ou laparotomia. Além da cirurgia, a radioterapia e quimioterapia podem ser utilizadas no tratamento. É o médico que decide a melhor forma, levando em consideração as condições e idade do paciente, o estágio da doença e o tipo de tumor, se inicial ou recorrente. Se detectada no início, pode-se retirar apenas o ovário afetado. Cistos são comuns no ovário e não devem ser motivo para pânico. Caso cresçam mais que 10 cm, é necessário intervenção cirúrgica. O Papanicolau não serve para detectar câncer de ovário, somente de colo de útero.

Teste genético

De acordo com Guareide Carelli, gerente médica sênior da AstraZeneca Brasil, o teste genético é o meio mais preciso para diagnóstico em caso de histórico familiar e sintomas. Foi o teste feito pela atriz americana Angelina Joulie, para descobrir anormalidade nos genes, que são erros na coordenação e produção de proteínas relacionadas às funções vitais do organismo e mutações específicas, como o desenvolvimento do câncer. As mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 estão associadas ao alto risco de câncer de ovário. O oncologista pode pedir o aconselhamento genético. Esse teste é usado para identificar a predisposição genética e melhorar a qualidade e sobrevida das pacientes.

Tipos de mutações:

Germinativas: são herdadas, passadas de pai ou mãe para filhos ou filhas.

Somáticas ou adquiridas: podem se desenvolver ao longo da vida, devido a fatores ambientais (radiação, produtos químicos, vírus) ou sem uma causa conhecida.

Tipos de tumor:

Carcinoma epitelial: nas células superficiais do órgão.

Maligno de células germinativas: que dão origem aos óvulos.

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