quinta, 24 de maio de 2018
Policial
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Alto preço: Tráfico mata mãe por vingança , na Capital

Lucilene Meireles / 10 de agosto de 2016
Foto: Arte/correio
“A gente sabe que cada dia mais esse câncer social vem batendo na nossa porta e, de uma forma ou de outra, ela (a droga) consegue destruir até quem não faz uso dela”. A frase é do delegado de Repressão a Entorpecentes (DRE), Thiago Sandes, ao fazer uma análise sobre o acesso fácil e o contato cada vez mais cedo dos jovens com as drogas. Dois casos recentes ocorridos na Região Metropolitana de João Pessoa chamam a atenção para a afirmação.

Na noite de segunda-feira, uma mulher de 37 anos foi morta por causa da ligação dos três filhos com tráfico de entorpecentes. Na sexta-feira, uma menina de apenas 12 anos, usuária de drogas, sofreu uma tentativa de homicídio. Foram três tiros, dos quais dois na cabeça.

Seja por curiosidade ou para ter acesso a dinheiro ‘fácil’, o envolvimento com drogas tem acontecido cada vez mais cedo entre os jovens. O problema, porém, não são apenas os efeitos que elas causam no organismo, mas a destruição das famílias.

Para o delegado de Repressão a Entorpecentes (DRE), Thiago Sandes, a situação é bastante delicada. “Percebemos que as vítimas têm entre 15 e 30 anos, e nos homicídios e lesões corporais graves, aproximadamente 90% têm a ver com o tráfico. É uma atividade extremamente violenta”, observou.

Uma das grandes dificuldades enfrentadas nas investigações de mortes violentas é a falta de informação das famílias. “Temos todas as indicações de que o homicídio ou lesão corporal sejam em função do tráfico, dívidas de drogas e disputa de território, mas o problema é que a família tem receio, vergonha”.

E emendou: “Esse é o problema no combate ao tráfico. Pais e mães perdendo filhos e não falam porque têm medo. Para alguns é até um alívio perder aquele ente porque vê a hora (os bandidos) entrarem dentro de casa e matar todo mundo”, constatou o delegado.

Esperança. Apesar da situação que parece estar fora de controle, o delegado Thiago Sandes disse que tem esperança de que a situação mude. Uma das formas de contribuir para isso é um trabalho que a Polícia Civil vai realizar com alunos de escolas públicas e privadas. Os estudantes vão participar de palestras sobre os malefícios das substâncias, para que se tornem multiplicadores. As escolas ainda serão selecionadas. As palestras serão no auditório da Central de Polícia, em João Pessoa.

“Tem que começar a alertar desde cedo. Eu acho que a família tem que chamar o feito à ordem, talvez a religiosidade mais presente, seja que religião for. Tem que focar nisso. É um vazio que tem que preencher. Sabemos que é fácil de adentrar no mundo das drogas, mas difícil de sair. É um drama que bate na porta, e não está muito longe. Quando olhamos, tem um vizinho, parente”, observou.

“A gente percebe que inúmeros pais fazem empréstimo consignado para pagar dívidas dos filhos. Já os filhos, vendem TV, carro. É importante observar os primeiros sintomas, como coisas desaparecendo de dentro de casa, comportamento agressivo, novas amizades. Tem que ficar de olho na juventude”, declarou Thiago Sandes. “Tenho esperança que melhore, mas se reforçarmos a educação familiar”, completou.

"O usuário é bastante inconsequente. Para satisfazer suas necessidades, sua dependência, coloca em xeque toda a família e as pessoas que estão em volta. Partem para furtos e outros crimes para poder pagar, mas chega um momento em que não tem como e a dívida de droga é paga com a vida". Thiago Sandes, delegado de repressão a entorpecentes.

‘Ordem para matar a família’

O único envolvimento que a dona de casa Wilma Nascimento tinha com as drogas era o fato de ser mãe de três jovens que atuavam no tráfico de entorpecentes. Por causa deles, ela foi ameaçada de morte.  Ela havia acabado de se mudar do Porto do Capim para o Jardim Veneza por conta das constantes ameaças, mas não conseguiu se livrar da violência.

Wilma arrumava a nova casa com o marido e foi morta ao sair do local para comprar o jantar, por volta das 20h30 da segunda-feira.

Segundo relatos de pessoas que conheciam a vítima, os três filhos dela teriam relação com o tráfico de drogas. Dois deles estão presos, um de 17 anos, está no Centro Educacional de Jovens (CEJ) e o outro, de 19, no Presídio do Roger.

Ainda no hospital, ela teria dito aos policiais que a ordem para matá-la teria sido de um traficante conhecido por Belo, que está no presídio PB 1, em Jacarapé. Conhecidos de Wilma, que foram buscar o corpo no Departamento de Medicina Legal (DML), não quiseram se identificar, mas relataram que, semana passada, criminosos tentaram matar o filho dela que está em liberdade. Ele é deficiente e conversava com um amigo, que acabou sendo atingido e morto.

“A ordem veio do presídio para matar a família toda. Todos nós estamos assustados”, relataram.

Deu conselhos

A rebeldia da adolescente de 12 anos custou caro para ela. Após ser atingida por dois tiros na cabeça, está em estado grave na UTI do Hospital de Trauma de João Pessoa. “Eu não queria isso para ela. Sempre orientei, dei conselho, mas ela não queria tomar”, desabafou Maria Silvana Souza de Lima, 30, mãe da menina. Ela confirmou que a filha é usuária de maconha, mas não soube dizer qual a razão do crime.

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