terça, 25 de julho de 2017
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Música para a alma: adolescentes infratoras encontram nova chance de reconstruir a vida

Lucilene Meireles / 27 de julho de 2015
Foto: Assuero Lima
Tocar violão é uma das coisas que as meninas aprendem ao chegar na Casa Educativa, na Capital, e Lara (nome fictício) demonstra intimidade com as cordas, dedilhando Asa Branca (Luiz Gonzaga). A menina de 15 anos foi flagrada num assalto à mão armada e está privada de liberdade há 10 meses. Envergonhada pelo ‘erro’, ela disse apenas que está ali por causa do artigo 157 do Código Penal. Aprendeu a lição e, pelo bom comportamento, foi designada para representar a Paraíba na Conferência Nacional da Criança e do Adolescente, que acontece em setembro, em Brasília.

Tudo por causa de um celular que nem precisava. Além disso, usou e traficou drogas. “Eu me arrependo do que fiz, mas tenho aprendido muito aqui. Nem sabia que existia o ECA antes e agora vou para longe falar sobre direitos da criança e adolescente. Meu medo é viajar de avião”, confessou a menina que quer estudar Direito.

A Casa Educativa

A Casa Educativa da Paraíba, que funciona em João Pessoa, no Centro de Apoio à Criança e ao Adolescente (Cendac), abriga 22 meninas que, de alguma forma, enveredaram pelo caminho do crime e, por isso, cumprem medida socioeducativa. A maioria está lá pelo envolvimento com o tráfico de drogas. Mas, por trás das histórias que as levaram até a privação da liberdade, existem sonhos, arrependimento, lágrimas e o desejo de reconstruir a vida ao deixar o confinamento. Para as autoridades, sobra desigualdade social e faltam políticas públicas efetivas, escolas atrativas e apoio da família.

Poesia no sofrimento

Há oito meses longe da família, Luana, 18 anos adotou a poesia como refúgio. Chegou até a ganhar um concurso em Campina Grande, sua cidade natal. “Queria esquecer o dia em que tentei matar uma pessoa. O corte com o punhal que eu carregava foi profundo, e a briga com uma garota foi por ela querer ficar com meu marido na época e ter me ameaçado. Eu voltava da balada e tinha bebido. Fui até ela e apunhalei. Me arrependo muito. Tenho uma nova consciência, hoje”, declarou.

Com longos cabelos negros e olhos vivos, Luana se apruma na cadeira e lê alguns artigos do ECA, que aprendeu na Casa Educativa. Orgulhosa, ela diz que perdeu as contas de quantas poesias e cordéis escreveu, mas garante manter vivo o sonho de ser poetisa. “Tive muitas oportunidades e não aproveitei. Agora, quero estudar muito e, um dia, lançar um livro com poesias que falam de amor”.

"Eu dava muito trabalho”

Apenas dois meses se passaram desde que Camila, 16, foi apreendida por tentativa de homicídio. Ela confessa que sempre aprontou em casa, mas nunca imaginou que chegaria ao ponto de perder o direito de sair na rua. Hoje, se diverte nas oficinas e uma das que mais lhe empolga é a de flauta.

“Eu dava muito trabalho. Sumia por um mês. Um dia, meus pais se cansaram e me colocaram numa instituição. Só que eu não queria e ameacei um educador com um punhal”. Ela garante que não chegou a ferir o funcionário, mas acabou sendo apreendida.

A menina conta que não quer errar de novo.

“Quero abraçar as oportunidades, fazer a diferença”. Na Casa, ela atua na Padaria do Menor, e diz que o importante não é o dinheiro, mas o fato de fazer algo para ajudar a família. Pelo trabalho, a adolescente recebe uma bolsa mensal de R$ 190. “Meu sonho é ser arquiteta. Estou estudando”, diz ela, que cursa o 8º ano.

“Quero pensar no futuro”

Patrícia tem apenas 15 anos e é mãe de um menino de 3, que mora com a avó paterna. Há quatro meses longe do filho por envolvimento com o tráfico e porte de drogas, ela diz que uma das maiores mudanças que o cumprimento da medida socioeducativa lhe trouxe foi a mudança de comportamento. De pavio curto, ela garante que está aprendendo a ter calma e paciência para lidar com as situações.

Com um sorriso no rosto e o batom forte, a menina vaidosa contou que a confecção de bonecas de tecido e a pintura são duas armas que usa para treinar a mente. Assim como Camila, Patrícia também trabalha na padaria.

“Quando sair daqui vou poder voltar para casa de cabeça erguida. Tenho sofrido muito e sei que deveria ter pensado antes de fazer, ter aproveitado as oportunidades, mas não vou olhar para trás. Quero pensar no futuro”, prometeu a menina que quer ser psicóloga.

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