domingo, 18 de fevereiro de 2018
Inclusão
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Loucos pela liberdade: reforma psiquiátrica aponta o fim dos manicômios

Bruna Vieira / 03 de julho de 2016
Foto: Assuero Lima e Nalva Figueiredo
Apanhava bastante e ficava em um quartinho trancada porque era agressiva. Foram 48 anos de internação consecutiva. Sandra Maria de França chegou ao manicômio quando ainda era adolescente. Quando está entrando em crise, lembra do que sofreu. Vivia na escuridão, os raios de luz só mesmo por debaixo da porta. Perdeu-se no tempo, junto com a família e as memórias da vida em liberdade. Ela não é única que passou a vida no cárcere. Dezenas de histórias ecoam nos corredores dos hospitais psiquiátricos. Hoje, serena, ela faz tapetes de fuxico e retalhos. Os resquícios da esquizofrenia vão sendo deixados para trás. Para modificar essa realidade, a reforma psiquiátrica está sendo executada e aponta para o fim dos manicômios. Serviços substitutivos estão sendo implementados, como os Caps e as residências terapêuticas.

Aos poucos, os hospitais psiquiátricos perdem espaço. Dois foram fechados em João Pessoa nos últimos dois anos. Enquanto os leitos caem nesses locais, aumentam nos hospitais gerais, onde a permanência é de curta duração. São 598 em toda a Paraíba, a maioria mantida pelo SUS.  Especialistas em saúde mental se dividem quanto à hospitalização dos doentes e as terapias se ampliam. Os Caps tratam as crises e as residências terapêuticas tornam-se o lar daqueles que moraram por décadas no manicômio e perderam os vínculos familiares.

“Enquanto fecha leitos em hospitais psiquiátricos, abre nos gerais. Porque são períodos mais curtos. É um quadro como qualquer outro. As pessoas acham que o louco só tem juízo, não adoece de outras coisas e por qualquer sintoma levam para o Caps ou para internação. Ninguém tem necessidade de ficar isolado. As visitas eram menos frequentes. A lógica era de longa duração e abandono. Sofriam violência física, abuso sexual. Estavam lucrando com a loucura”Jaidete Alves, coordenadora do Caps Caminhar.

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Serão substituídos

Atualmente, há três hospitais psiquiátricos na Paraíba. O único público, de gestão do governo do Estado é o Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira. Eles mantêm, além dos doentes mentais, os dependentes químicos. O diretor, Walter Franco avalia que as terapias têm avançado após a reforma psiquiátrica. “É um tema complexo, que envolve ações conjuntas e busca acima de tudo a humanização, o cuidado maior com o paciente. Está mudando o perfil anterior estabelecido por muitas décadas, que era de internação por tempo indeterminado, isolamento e exclusão da sociedade. Muitos eram esquecidos pela família e depois já não se conseguiam mais contato. Passavam-se anos, décadas, chegavam a morar”, contou.

O manicômio pode deixar de existir. “Existe um movimento de luta antimanicomial no Brasil inteiro. Os militantes mais radicais têm ideia de destruição dos manicômios. Acabar de uma hora para outra seria leviano e irresponsável. Toda mudança leva um processo, mas, isso vai ser possível. Começamos a fazer um trabalho de implementação de oficinas experimentais de cozinha, artes plásticas, manuseio de papel maché, artefatos de arte. A arte exterioriza o mundo interno e ajuda a ajustar e organizar o que está dentro de si, auxiliando na integração psico-emocional”, explicou.

Serviços substitutivos na Paraíba

62 Caps I

9 Caps II

5 Caps III

11 Caps i (Infantojuvenil)

6 Caps AD (Álcool e Drogas)

8 Caps AD III (Álcool e Drogas 24h)

15 SRT (Serviço de Residência Terapêutica)

84 PVC (Programa de Volta para Casa)

4 UA (Unidade de Acolhimento Transitório)

5 CR (Consultório na Rua)

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Maus tratos

Walter afirmou que era comum que as pessoas que nem tinham transtornos fossem deixadas no manicômio. “Alguns nem tinham transtornos, outros eram dependentes químicos ou foram abandonados na rua. Normalmente vinha para o manicômio e era medicado. O maltrato se dava pelo quantitativo grande, o serviço não tinha condição de ter um cuidado maior. A luta é por conta da visão desumanizada que ocorria, a falta de cuidados extrema da figura humana”, justificou.

“O propósito não é ter um manicômio melhor. É sair da categoria de hospital e ser um grande centro de convivência. Temos uma praça de 1.800 m2 e isso faz parte das terapias complementares integrativas como complemento do medicamento psicotrópico. Sair da estrutura de concreto e ter contato com a natureza. Eles não estão presos. Tem um sistema de música instrumental, que auxilia na harmonização. A inclusão social, eles vão a museu, orquestra sinfônica, planetário, feiras de artesanato vender os produtos. Antes não saíam. Se relacionar com pessoas melhorou a autoestima e tudo isso faz parte da reforma”, ressaltou Walter.

Hospitais psiquiátricos na Paraíba

Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira: 76 leitos

Instituto de Psiquiatria da Paraíba: 160 leitos

Clínica Dr. Maia: 147 leitos

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A loucura

Segundo Walter, a loucura é um distanciamento da realidade que na maioria das vezes tem origem na desestruturação familiar. “É relativo. As pessoas têm momentos de loucura, mas se restabelecem, com atos que vão contra os próprios princípios morais e éticos. Os internos se distanciam temporariamente da realidade, porque a realidade interna de angústia, dores, impotência, é muito dura. Ele se desconecta de si. Quando se distancia da realidade interna, se distancia da externa, isso é loucura”, afirmou.

“Todos têm algo em comum: desequilíbrio da ordem do organismo, do corpo. Desenvolve perturbação pela dificuldade de lidar com a realidade. Um tanto de transtornos, as pessoas conseguem conviver, outros, mais crônicos, podem não estar aptos à atividades que exijam nível de intelectualidade mais profunda, mas, pode desenvolver outras. No Juliano, é raro ver um paciente sem roupa, talvez algum que precise se libertar de alguma coisa e rasgue a roupa. Isso era bem comum quando tinha uma quantidade imensa de pacientes”, destacou Walter.

Walter informou que as grades de ferro estão sendo substituídas por portas de madeira, porém, ainda há o estigma com quem é diagnosticado com algum transtorno. “Não tem necessidade. Na sociedade, tem gente com comportamento que é uma loucura, mas, nunca entraram em hospital psiquiátrico. Arroubos violentos dentro de casa, na relação com a família. Pessoas que assumem o poder e cometem atrocidades. São patologias, mas todas se consideram normais”, declarou.

Hospitais psiquiátricos fechados:

Maio de 2014 – Casa de Saúde São Pedro

Dezembro de 2015 – Sanatório Clifford

Uma vida no hospício

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Walter comentou o que ocorre com quem morou por anos em hospital psiquiátrico. “Quem sofre transtorno já tem falta de contato com a realidade externa, delírios, alucinações. Quando é isolado, essa falta de contato vai se cronificando, o acesso à vida social e relacionamento interpessoal vai ficando cada vez mais difícil. Quem passa a vida no manicômio perde a noção da realidade”, disse.

A diretora técnica e psiquiatra do Juliano Moreira, Marinalva de Sena, contou que haviam mais de 80 pacientes morando há anos no hospital. “A maioria foi embora, os familiares se interessaram. Os que não conseguiram foram para as residências psiquiátricas. Os principais transtornos que tratamos são esquizofrenia, bipolaridade, psicose transitória. Tem também pessoas com deficiência mental, mas, é importante lembrar que elas não são clientela de hospital psiquiátrico. Desde pequenos precisam de treinamento, porque tem um retardo. Se não tiver orientação, na idade adulta terá problemas. Temos uma que nunca teve convívio, sempre viveu internada e já veio assim de Recife”, disse.

A unidade também tem leitos para dependentes químicos de ambos os sexos. Segundo a psiquiatra, eles permanecem por até um mês, período de desintoxicação. Em seguida, são acompanhados pelos Centros de Apoio Psicossocial (Caps).

“Dependência não é loucura, embora, alguns também apresentem comorbidades”, apontou Marinalva.

Pela internação

Os outros dois hospitais psiquiátricos no Estado são particulares conveniados aos municípios. No Instituto de Psiquiatria da Paraíba, em João Pessoa, todos os leitos são mantidos pelo Sistema Único de Saúde. A diretora, Francisca Neves, defende a hospitalização. “A reforma iniciou de cima para baixo e deveria ser ao contrário. Quem vê por trás do vidro, não conhece a realidade de quem tem parente com transtorno mental. Uma patologia em uma população de baixa renda, se não puder internar, vai levar para onde? O Caps não tira paciente de crise, se tirasse, a gente não teria que dar alta para que outros entrem. Complementariam junto com as residências terapêuticas, mas, não é que acabe o hospital. Não é toda situação que dê pra resolver neles”, afirmou.

Segundo Francisca, o perfil dos pacientes é das classes sociais mais baixas. “Pessoas de posse levam para fora para que ninguém saiba. Aqui temos da Grande João Pessoa, Santa Rita, Cabedelo e no Juliano Moreira, são os do interior. Geralmente os leitos não ficam muito tempo desocupados. A demanda é muito grande. Quando estão em crise vão primeiro para o serviço de pronto atendimento em saúde mental, em Mangabeira (Pasmen), são avaliados e podem ficar lá até 72h. Se o quadro não cede vão para os hospitais”, esclareceu.

No IPP, metade dos pacientes têm transtornos e os demais são dependentes químicos. “Droga ilícita, crack e maconha. Não querem se internar, tentam fugir. Em abstinência dá trabalho, roubam e agridem a família. Não tem pai e mãe que tenha filho nessa situação e quer deixar na rua, eles tem consciência que precisa de tratamento. Esquizofrenia, bipolaridade, depressão ou mania (alegria exacerbada), alcoólatras, dependentes. Todos de baixa renda, não tem quem cuide em casa. Alguns da zona rural. A família não quer receber, mesmo de alta e a gente vai deixar no nosso carro, mesmo sem ser nossa função. Dão endereço errado de propósito. Tem uns que entram na justiça para o paciente ficar internado direto”, revelou.

Reaprende

Francisca contou que o perfil de maus tratos mudou. “Há 51 anos meu pai fundou esse hospital. A ideia de paciente preso e de eletrochoque não existe mais. Outros países já retornaram os hospitais psiquiátricos. A gente não vê paciente deitado tomando soro. Acordam, tomam banho, café, a medicação e participam se quiserem das atividades. Ele anda, joga, tem uma área grande de deambulação, faz terapia ocupacional, atividades da vida diária, reaprende a escovar dente, pentear cabelo, oficina culinária. Dependendo do transtorno, como esquizofrenia, a pessoa cria um mundo e temos que estimular para que não fiquem dependentes. Uns escolhem a roupa que vestem, outros não tem condições, querem andar nus, não falam”, informou.

Dificuldades financeiras

“Não é fechar o hospital. É dar condição dele sobreviver e para os outros modelos também. Quando a família tem dinheiro, põe em clínica particular e resolve. E quem não tem? A gente se mantém através de repasse feito pelo SUS. A diária de internação é de R$ 48,62 para hotelaria, medicamento e equipe multiprofissional. Tudo sai desse montante. Não dá para cobrir as despesas. A alternativa é a contenção de despesas. Trocar o feijão mais caro pelo mais barato, procurar fornecedor com preço mais acessível. O aperto financeiro existe porque a carga tributária é muito alta. No hospital público é diferente porque é o Governo quem paga a folha”, relatou a diretora.

91 funcionários no IPP

7 plantonistas 24h

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Querem ir embora

Francisca informou que os dependentes químicos querem ir embora e é preciso ter cautela nas visitas. “Tem traficante que se passa por amigo e a família não quer que visite. Tem que ter cuidado porque eles vão passar tempo no hospital a contragosto, tem tudo a reclamar, mesmo que se envolvam nas atividades. Se sentir rejeitado pela família também prejudica a evolução dos pacientes com transtorno mental. Se a gente, que é ‘normal’ se sente mal, imagine quem ouve que é doente e tem que ficar internado e o familiar promete, mas não vai visitar”, disse.

Loucos que matam

Francisca Neves comentou sobre a lucidez. “No tempo de hoje fica difícil definir loucura, porque tudo que foge dos padrões é loucura. O que era ontem, pode não ser mais. Os comportamentos mudam. Tem gente que não tem condições de viver em sociedade e até matam, como Suzane Von Richthofen. Doce e meiga foi capaz de tramar tudo aquilo. E até hoje não se sabe se é psicotapa, se tem dupla personalidade. Tem paciente de todo jeito, com defeito cerebral, agressivo, que com o tempo e a medicação passa. Tem quem chegue se acabando de chorar, com depressão e risco de suicídio. Não tem escolaridade. Pessoas com nível superior, que nascem com a patologia e ela está guardada e uma decepção aflora. Alguns que estudam muito e não passam em vestibular”, elencou.

“Patologia mental não tem cura, tem melhora. Pode conviver se estiver sob cuidado, medicação e acompanhamento. Ainda não vi nenhum transtorno, por mais leve que seja, que tenha passado por internação e não necessite de medicamento. Antigamente, chegavam algemados, amarrados, com faca querendo matar a mãe. Hoje não acontece tanto porque passam pela triagem no Pasmen. Tem uns que quebram cama, rasgam colchão, lençol, vai para debaixo do chuveiro e molham tudo”, descreveu Francisca.

Em Campina Grande

Em Campina Grande, a clínica Dr. Maia atende pacientes psicóticos em surto há 50 anos. Ela também é particular e conveniada ao município. Os pacientes são encaminhados por serviços de saúde público ou privado, mandado judicial ou demanda espontânea da família. O tratamento também é composto por equipe multidisciplinar. Segundo a diretoria do hospital, dificilmente os pacientes ultrapassam um mês de internação e não há pacientes moradores.

Tereza Maia, diretora, afirmou houve aumento de leitos, ao contrário do Juliano Moreira. “Após a reforma, muitos hospitais que não tinham condições de permanecerem abertos, pela má qualidade, foram fechados. Pelo nosso projeto terapêutico humanizado, a demanda e os leitos aumentaram. Além do SUS, temos mais 17 particulares ou para outros convênios. Trabalhamos quase pela via da ‘filantropia’, porque o recurso repassado não é suficiente. O governo não tinha motivos para fechar os hospitais por decreto, esse movimento tem sido feito por inanição financeira”, relatou.

“A ideia é fechar os manicômios, onde os pacientes era ‘depositados’ e esquecidos, inclusive pelo próprio governo. São diferentes das clínicas psiquiátricas. O psicótico não tem cura, mas, apaziguamento. Muitas vezes um surto provoca situações que os familiares não têm controle. O hospital é mais um elemento com os demais da rede de saúde mental. É um tratamento curto, que enfoca a crise, trata o paciente e o envia de volta para casa”, afirmou Tereza.

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Dependentes químicos

O perfil dos pacientes na clínica Dr. Maia é de psicóticos em crise, mas, também usuários de álcool e drogas. “Esse é um problema , pois, não existem alas adequadas e separadas para estes. Mesmo porque, o dependente químico é um psicótico, que, isento da droga, mostra em que nível de desorientação mental se encontra e que tipo de estrutura tem. Muitos pacientes tem problemas clínicos, físicos e até de asseio, por se recusarem aos hábitos diários de higiene”, concluiu Tereza.

Caps

Dos 101 Caps no Estado, apenas o AD III Jovem Cidadão é estadual. Os demais são municipais. Segundo a Coordenação de Saúde Mental do Estado, 14 funcionam sem cadastro no Ministério da Saúde. Por não terem portaria ainda, atuam com recursos próprios. Jaidete Alves, coordenadora do Caps Caminhar, em João Pessoa, explica de que forma a unidade atua em meio à reforma psiquiátrica. “É um mecanismo para substituir o hospital psiquiátrico. À medida que vão sendo abertos, os leitos vão sendo fechados. Não se pode mais abrir leitos psiquiátricos. O Juliano que já chegou a ter 250, hoje tem pouco mais que 70”, informou.

De acordo com Jaidete, o Caps é um instrumento destinado à pessoa com transtorno mental grave e de atenção à crise. “Em vez de ser internado, vai para o Caps. Um período mais curto, por portaria até sete dias consecutivos e 14 intercalados no mesmo mês. No hospital a internação é de 45 dias. É aberto, o paciente não é privado de liberdade e os familiares podem visitar de 8h às 20h”, explicou a psicóloga e especialista em saúde mental e gestão de clínicas.

“A internação é necessária, mas, não nesse modelo da indústria farmacÊutica e figura central do médico. Quem trabalha na visão da desospitalização espera que chegue o fim dos manicômios. É importante para devolver os direitos das pessoas. Tem gente que passou a vida internado, 45 anos trancado. Perde-se a identidade, onde é considerado igual aos demais e a singularidade não é vista. Além dos relatos de crueldade e maus tratos”, afirmou Jaidete.

500 usuários em tratamento no Caps Caminhar.

76 profissionais

Residências terapêuticas

Em João Pessoa há duas residências terapêuticas. Elas são gerenciadas pelos Caps Caminhar (Bancários) e Gutemberg Botelho (bairro dos Estados). Segundo, Jaidete Alves, coordenadora, o objetivo é devolver a ideia de lar. “É uma casa normal, eles vão para o Caps participar de atividades e se inserem nos espaços da comunidade, como caminhar na praça. Não são institucionalizados de novo. No hospital eles não podem abrir a geladeira, deitar a hora que querem, coisas simples que tinham perdido”, explicou.

Jaidete contou que é preciso retomar um processo educativo de atividades da vida diária (AVD). “É uma evolução. Eles tinham perdido, como escovar dentes, se enxugar com toalha. Conhecer vizinhos, sentar na calçada, conversar. A maioria tem esquizofrenia, bipolaridade e psicose. Nada que impeça o convívio social. Quando apresentam alguma crise, não dormem, estão mais agitados ou agressivos ficam na atenção 24h do Caps até melhorarem. São idosos, com doenças crônicas, diabetes, hipertensão, epilepsia grave, Parkinson. Pessoas oriundas do Juliano, que passaram mais de 30 anos e perderam vínculos familiares. Não é um serviço de saúde, é uma moradia”, disse.

8 moradores na residência feminina de Mandacaru

7 moradores na residência mista de Mangabeira

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Sabe quem passou na pele

A realidade de internação, sabe quem passou na pele. Janette Santos de Morais, 35, que sofre de transtorno esquizo-afetivo viveu um pesadelo há pouco mais de um ano. “Tava deitada no colchonete no corredor e senti uma mordida na orelha no IPP. Foi outro paciente que decepou quando estive internada lá. Foi a primeira internação porque já não dormia e cheguei a pesar 38 kg”, contou mostrando as fotos do antes e depois da crise. Hoje ela passa por acompanhamento no Caps a cada três meses e faz terapias alternativas, arte-teatro e zumba.

O pai, Ivan Francisco de Morais, relatou que internar não é o melhor caminho, no caso de Janette. “Foram 24 dias de internação. Saiu do inferno para o céu. O tratamento é mais humanizado no Caps. É importante também que o médico saiba dosar o medicamento. Sofremos muito com o que aconteceu, ela toda enfaixada, depois ficava mexendo na orelha inflamada. Foram mais de 15 anos de tratamento, diversos remédios e nunca estabilizou. Diziam que era mania, bipolaridade. Ela ficava agressiva, batia na gente e queria correr no meio da rua, me ligava até 12 vezes por dia para saber se eu estava perto de voltar. Hoje é uma vida normal”, disse o policial militar.

“Ela dizia que via uma menina morta no banheiro e tinha medo de tudo. Foi quando percebi que havia algo errado e procuramos o médico. No começo fiquei sem entender e triste. O primeiro neurologista foi em Arapiraca (AL) em 1999”, narrou a mãe, Fátima de Morais.

“Quando estou agitada sinto medo, pânico, cheiro e gosto exacerbado ao ponto de ficar sem ar e não conseguir comer, vomitando. Eu escutava vozes, sempre positivas, dizendo que eu ia ficar bem. Hospital é triste, passei mais de 24 horas amarrada. Fiquei com feridas nas costas por estar na mesma posição. Levei uma gravata de um faxineiro”Janette de Morais, paciente.

Apoio familiar

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Cecília Andrade, 68, convive com a esquizofrenia há 36 anos. Foram mais de 20 internações. “Passei por todos. No IPP eu não podia fumar, era muita sujeira e fedor. No Juliano não dormia. No São Pedro tinha briga. Desde 2007 não me internei mais. Encontrei a paz no Caps. Faço capoeira, pinto as unhas na oficina da boniteza, maquiagem, cabelo. Converso com meus colegas doentes mentais. Meu marido é ótimo, sempre cuidou de mim. Tenho três filhos e três netos”, contou entre a euforia e o choro fácil.

Vidas perdidas

Conceição Maria da Silva, 75, passou 46 anos morando no Juliano Moreira. Diferente de Sandra, ela não fala sobre a vida interna. Os fatos que relembra são anteriores ao hospício. Conta que ainda adolescente ia comprar querosene, já que em casa não havia fogão a gás. O dono da venda, bem mais velho, a olhava com outros olhos. A família pobre a entregou para morar com o senhor. Infeliz, se apaixonou por um cliente, de quem engravidou. Expulsa, os pais cuidaram do filho recém-nascido. Foi para uma casa de prostituição, onde adquiriu tuberculose. Vai para um hospital, onde teve a primeira crise de esquizofrenia. Foi jogada no manicômio, de onde saiu para a residência terapêutica.

Não era necessário

Com o tratamento carinhoso, hoje essas senhoras que passaram décadas no manicômio, não precisam mais de internação. “São poucas crises, nunca foi necessário. Os comportamentos foram trabalhados. Elas escondiam pão dentro da roupa, andava com os pertences em uma sacola. Coisas que para a gente é automático, eles perderam. As residências são uma evolução. Hoje elas chamam de casa, pedem maquiagem, esmalte, tinta de cabelo, colares. Com a abertura dos serviços substitutivos, os hospitais vão sendo fechados. Os transtornos mesmo não sendo severos, as pessoas eram jogadas no hospício. Não se vê tanto doido como antes”, contou Lara Melo, psicóloga.

A residência em Mandacaru abriu em 2007 e sempre há um cuidador com as ex-internas. “Com o transtorno, eles esquecem a noção de tempo e espaço. A arte-terapia consiste em ver esses espaços. Desenhos, pinturas, outras atividades, como colher frutas, cuidar do gato, coisas de casa. Inserimos isso. Loló tinha hábito de criar galinhas antes da internação. Então ela foi comprar frangos, que já deram frutos. Ela é a mãezona, assumem funções familiares. É importante esse retorno ao cotidiano. Vieram de um sistema de manicômio, totalmente abandonadas”, relatou Robinson Cambiazo, arte-educador.

Humanização

Se garantir tratamento humanizado para quem tem sanidade, para os doentes mentais pode ser mais difícil. O psiquiatra Roberto Mendes, 1º secretário da Associação Paraibana de Psiquiatria explica como as terapias deveriam ser. O ideal seria que fosse centrada na prevenção primária, com a identificação precoce dos primeiros sintomas ainda na atenção básica, e que houvesse acesso universal ao tratamento ambulatorial com psiquiatras, psicólogos e todas as possibilidades que fossem necessárias. A não existência desta rede leva ao agravamento dos sintomas, à sua cronificação, e à chegada já em situações de crise aos prontos-socorros”, disse.

Para Roberto, há muito há avançar. “O termo ‘reforma psiquiátrica’ é equivocado e excludente, já que apontaria os psiquiatras como responsáveis pelas mazelas do sistema. Hoje, nenhum profissional que atua na área se sente confortável com um modelo manicomial ou centrado no tratamento asilar. Os Hospitais Psiquiátricos ainda existem exatamente porque ainda não existe uma rede complementar adequada para o suporte para nossos pacientes. Já melhoramos muito, mas ainda há muito a avançar”, complementou.

Alguns pacientes necessitam internação e o médico deve saber avaliar. “A palavra-chave é “risco”. Devem ser internados os que possam colocar em risco sua integridade física e mental, ou a de pessoas ao seu redor. Estes são a minoria dos casos. O termo “loucura” não é utilizado pela psiquiatria por ser estigmatizante. Um transtorno mental é uma síndrome, isto é, um conjunto de sintomas clínicos, que costuma estar associada a alterações de comportamento, a um mal-estar ou a uma incapacidade. Uma doença mental é uma alteração dos processos cognitivos e afetivos, do desenvolvimento, perturbações a nível do raciocínio, da compreensão da realidade e da adaptação à vida em sociedade”, distinguiu Roberto.

Causas

Segundo Roberto, os transtornos mentais podem ser ocasionados por fatores biológicos (sejam estes genéticos, neurológicos), ambientais (sociais) ou psicológicos. Já as doenças mentais estão associadas principalmente aos transtornos neuróticos (como ansiedade e depressões) e aos transtornos psicóticos (como a Esquizofrenia e os casos mais graves do Transtorno Afetivo Bipolar). “Nestes últimos, haveria uma alteração na capacidade de interpretação da realidade de forma adequada, e as vivências são experimentadas de maneira tão distorcida quanto singular”, concluiu o especialista.

A humanidade vai se distanciando

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A longa permanência nos hospitais distancia o paciente, em alguns casos, dos hábitos humanos, como a própria higiene. “Em casa tem rotina, acordar, tomar café à mesa. Hospital é diferente, são muitas pessoas, não tem um cuidador para cada um, tem que aguardar horário de refeitório, os banhos são coletivos. Diferente de quem passa 20 dias, quem passa muitos anos é natural que perca essa rotina residencial. Tem que reeducar. Semana passada, estudantes de odontologia auxiliaram na higiene bucal. Quando a pessoa está em crise, perde a autonomia e os hábitos vão se distanciando”, explicou Walter Franco, diretor do Juliano Moreira.

“Alguns já perderam os hábitos antes de entrar no hospital. Viviam na rua, tinham família desestruturada, não são todos. Até pela falta de acompanhamento familiar, ficaram sem orientação e educação no lugar. Dá para imaginar que mesmo quando estava com a família não era cuidada para os hábitos essenciais. Temos 77, mas, já teve mais de 400. Hoje há o cuidado com a higiene e resgate da autoestima, salão de beleza, barbearia”, justificou Walter.

Para Walter, o tratamento humanizado é desafio tanto para os doentes mentais, quanto para os que tem sanidade. “Não é algo que se aprende num curso. O ser humano desenvolve dentro de si. Atitude humanizada com quem encontrar pelo caminho. O que acontece nas instituições de saúde é que, pela correria, excesso de atividades, desgaste, estresse, os profissionais vão se distanciando desse lugar de humanização, fator essencial no processo de estabilização emocional e recuperação do paciente. No Juliano o exemplo começam nos funcionários para que se sensibilizem e comecem a fazer. Envolve fala, manejo, trato”, destacou.

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