quarta, 19 de setembro de 2018
Cidades
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Pressão e depressão nas universidades

Beto Pessoa / 28 de janeiro de 2018
Foto: Beto Pessoa e Nalva Figueiredo
“A universidade deveria existir para ajudar estudantes, formar bons profissionais, mas ela destrói sonhos, cria indivíduos frustrados e doentes”. A fala é de Arthur Silva (nome fictício), estudante do oitavo período de Medicina da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. Com 23 anos, ele faz parte dos jovens universitários que, além de conhecimento, adquiriu, na sua trajetória acadêmica, diversos transtornos mentais incapacitantes.

Fobia social, transtorno do pânico, síndrome de Burnout e depressão são só alguns dos problemas desenvolvidos por esses alunos, que na falta de assistência das universidades e sem condições de bancar os altos custos do tratamento, têm criado grupos de apoio mútuo, encontros virtuais e presenciais que têm como objetivo tornar o dia a dia mais suportável.

Arthur Silva não conseguia atendimento psicológico dentro do Campus I da UFPB. Vendo a depressão progredir, decidiu criar um grupo no Whatsapp com outros 20 universitários, chamado “Um Novo Começo”. São universitários de cursos, idades e histórias distintas, mas que possuem um traço em comum: a dificuldade de lidar com a pressão da academia e dos professores, muitas vezes insensíveis às fragilidades dos alunos.

“Pagamos muitos módulos e sofremos muita pressão. Se você não consegue cumprir algum prazo, é dito, pelos próprios professores, que você não é capaz de ser um bom profissional. No terceiro período, comecei a não apreender o assunto estudado, passei a dar tapas no rosto e na cabeça, como que para enfiar o assunto de todo jeito”, recorda Arthur.

Brasil - o suicídio é a 3ª principal causa de morte dos adolescentes

Cobranças

Empatia poderia ser palavra-chave na relação entre professor e aluno, mas tem estado distante das instituições de ensino, criando fissuras na saúde mental dos universitários, sobretudo naqueles que têm pré-disposição aos transtornos, explica a psicóloga Sarah Nóbrega.

“Uma mesma coisa pode ser dita de diversas formas, mas alguns professores entrendem que precisam ser carrasco. Isso influencia diretamente na forma como o aluno responde às cobranças”, destaca a profissional. Depressão, síndrome do pânico e síndrome de Burnout são alguns dos problemas que mais atingem esses estudantes.

Se décadas atrás o ideal de vida era casar, formar família e conseguir um emprego razoável, suficiente para bancar essa estrutura construída, hoje, desde muito cedo, o adolescente aprende que deve ser o melhor, dar tudo de si para conseguir uma boa posição.

“Hoje existe uma cobrança social muito grande. Se criou a ideia de que status, posição no mercado, bons cargos estão atrelados ao quanto esse jovem se dedica. Não basta ser um aluno, passar no vestibular, mas sim ser o melhor dos alunos”, explicou Sarah Lopes.

O problema disso tudo é que muitos universitários dão 100% de si em seus estudos, pesquisas e projetos acadêmicos, mas ainda assim não conseguem alcançar algumas destas metas idealizadas. Arthur da Silva conhece bem essa realidade. Deu tudo de si para entrar no curso mais concorrido da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o de Ciências Médicas. Lá dentro, encontrou mais pressão do que pode conheceu durante toda sua caminhada até o Ensino Superior, criando nele fragilidades e inseguranças.

“Os professores nos dão prazos curtos, muitos com menos de 24 horas. Se não conseguimos cumprir, eles dizem: ‘O prazo é este. Cumpra ou desista do curso’. Se você questiona uma prova, é perseguido. Pouco a pouco a depressão da gente vai aumentando e a universidade parece não se preocupar”, disse o jovem.

Suicídio e violência

 Arthur Silva é o idealizador do grupo de Whatsapp “Um Novo Começo”. Além de reunir outros estudantes numa rede de ajuda mútua, contra a depressão e diversos transtornos mentais, ele tem batido de frente com a UFPB em busca de assistência à saúde mental.

“Temos uma amiga que batia a cabeça na parede para tentar dormir.. Outro tentou suicídio via veneno, hoje está cego de um olho pelos danos da substância. Outro que se corta para amenizar a dor que sente. E onde está a universidade no meio de tudo isso? Todas essas doenças começaram aqui na UFPB, mas a solução não está vindo da instituição”, cobra Arthur Silva, estudante de Medicina.

Pela falta de ajuda, o jovem entrou com processo no Ministério Público da Paraíba (MPPB), cobrando atendimento psicológico por parte da UFPB. Ele também pretende entrar com ação na Justiça Federal cobrando assistência, uma vez que o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), criado pelo MEC para ajudar universitários em vulnerabilidade social, no seu artigo terceiro, prevê atenção à saúde como um dos seus objetivos.

“Somente ano passado, três estudantes se mataram na UFPB, dois do campus IV e um do campus III. Ninguém está garantindo que mais estudantes não se matarão. Quando conseguimos atendimento, as medicações são prescritas pelos médicos, mas não podemos comprar. Eu estava tomando Luvox e Ritalina, que custam em média R$ 420. Hoje vivo com R$ 570, do auxílio moradia. Como vou me tratar assim?”, disse Arthur.

A assessoria de imprensa da UFPB disse que no ano passado foi registrado um suicídio no Campus IV, mas não tem conhecimento dos demais casos citados.

Nascido no Sertão paraibano, filho de agricultores, Arthur vive sozinho em João Pessoa e explica que cada dia é uma vitória para quem tem depressão dentro das universidades. “Já me peguei no meio da madrugada pensando em formas de me matar. Na UFPB, estudo no segundo andar, e muitas vezes, observando a janela, me pergunto se não seria melhor acabar com tudo. Sigo aqui porque meus pais lutaram e lutam muito para eu estar aqui. Mas a pressão só aumenta e não sei até quando consigo resistir”.



Superlotação

Os espaços para tratamento até existem, mas operam em baixa capacidade, vista a demanda de universitários com transtornos mentais. “Se vamos na Clínica Escola de Psicologia, dizem que não há vagas. O mesmo no CRAS, da UFPB, que funciona como uma espécie de USF para os estudantes, mas que tem mais de 200 na lista de espera da psiquiatria. Como vamos melhorar assim?”, disse.

Toda sexta-feira, no sexto andar do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU), funciona o atendimento psiquiátrico voltado somente para estudantes da UFPB. Apesar do período integral e do atendimento exclusivo, não é fácil dar continuidade ao tratamento, explica Arthur, que uma vez por mês visita o local.

“Não basta consulta, o médico prescreve medicamento e precisamos comprá-los. O PNAES garante esse auxílio, mas a universidade diz não ter verbas. No fim é tudo muito triste, você chega numa sexta-feira, dia que geralmente os jovens programam ir às festas, curtir o fim de semana, e você vê uma ala psiquiátrica cheia de jovens universitários em busca de tratamento”, lamenta.

Desistir para sorrir

Quando o peso de vivenciar a universidade é forte demais e o corpo não consegue continuar, a melhor solução pode ser se afastar daquilo que faz mal. É o que garante  Ramon da Silva Santos, de 25 anos. Após 1 ano e meio de estudos no Doutorado em Ecologia e Recursos Naturais, cursado na Universidade Federal do Ceará (UFC), ele resolveu que continuar naquele contexto poderia levá-lo a morte.

Oito meses atrás largou o Programa, por muito tempo idealizado como sinônimo de um futuro melhor, mas que estava fazendo seu presente definhar. Filho de doméstica e motoboy, ele passou no doutorado antes mesmo de concluir o mestrado. Passou no mestrado antes de finalizar a graduação. E assim, sem intervalo, foi construindo sua trajetória dentro da universidade. Sequer teve tempo para ‘respirar’ entre uma titulação e outra, foi o que resultou no seu desgaste físico e mental.

“Fui o primeiro da minha família a entrar na universidade. Para meus pais, só terminar o Ensino Médio já era um grande feito, porque não tiveram isso. Mas a gente se cobra. Eu me cobrei mais, porque servi de espelho para muita gente da minha família, sentia que precisava ser doutor. Que para ser alguém na vida, para conseguir um emprego, para ter destaque, eu precisava ser doutor”, recorda o jovem.

Cursando o doutorado, numa cidade distante, sem familiares e poucos amigos, os transtornos começaram a surgir. “Você está num doutorado, tem que publicar muitos artigos científicos. A pesquisa não fica tão boa, você não consegue desenvolver o projeto como quer e isso vai frustrando. Para muitos professores o mais importante é que se publique, que tenha volume de publicação, você acaba se cobrando ainda mais e isso te afeta em vários sentidos”, destacou Ramon da Silva Santos.

Conhecer os próprios limites

Para a psicóloga clínica Sarah Lopes, entender os próprios limites é o primeiro passo na tomada de qualquer decisão do indivíduo. “A nossa vida é como um cassino. Ninguém aposta todas as fichas num único número. Temos família, lazer, estudo. Precisamos nos dedicar a tudo isso, porque quando você se devota a uma única coisa a chance de frustração é maior, pois você não tem outras ‘ancoras’ para ajudar”.

Ramon da Silva Santos tem apenas 25 anos. Se desligou do seu doutorado há oito meses, mas com toda a experiência se tornou ‘Phd’ no mais importante ensinamento: que a vida não se resume ao currículo. “Hoje me sinto bem melhor. Agora eu consigo sorrir, coisa que era difícil. Pretendo voltar a fazer o doutorado, mas não sob essa pressão. Quero ir no meu tempo. Para ser feliz eu não preciso ser doutor. Eu só preciso viver”, concluiu o jovem.

UFPB - A assessoria de imprensa da UFPB informou que os recursos do PNAES não custeiam assistência à compra de medicamentos para saúde, mas são oferecidos serviços de psicologia pela Pró-Reitoria de Assistência e Promoção ao Estudante (PRAPE). Informou ainda que a Clínica-escola de Psicologia atende aproximadamente 200 estudantes.

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