quinta, 21 de setembro de 2017
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Encontro em João Pessoa revela falta de dados sobre a violência sofrida por mulheres negras

Celina Modesto / 03 de agosto de 2015
Foto: Assuero Lima
“Estamos vivendo um momento de redescoberta da estética afro e de afirmação da identidade negra. Há um trabalho político, mas também de importância da auto afirmação”. A coordenadora da ONG Bamidelê, Terlúcia Silva, foi a responsável por tal avaliação, feita durante o I Encontro Estadual de Mulheres Negras da Paraíba, que terminou ontem, em João Pessoa. Oitenta e seis mulheres dos mais variados lugares do estado participaram do encontro para discutir, entre outros temas, o racismo e a violência contra mulheres negras.

Segundo Terlúcia Silva, as discussões, que tiveram início sexta, também tiveram como objetivo fortalecer a luta e a auto-estima das mulheres negras. “Estamos construindo uma Carta da Paraíba com reivindicações das mulheres negras de todo o estado e que será amplamente divulgado”, afirmou.

A ativista salientou a importância do encontro para a dimensão pessoal das participantes. “Mulheres de Santa Luzia, quilombolas, da educação, trans, etc, têm afirmado o sentimento de fortalecimento da identidade. Isso ficou explícito. A redescoberta da estética afro é um movimento interessante e importante para a gente porque, cotidianamente, independente de onde se trabalha ou frequenta, sofremos preconceito, principalmente por causa do cabelo”, relatou.

A ONG Bamidelê tem a campanha “Morena não, eu sou negra”, que busca o resgate da importância da autoafirmação. “Ser negra é afirmação política para quem tem a experiência do racismo. Cabelo crespo e cacheado é bonito”, frisou. O encontro também contou com oficinas práticas de dança afro, maquiagem para negras, trança nagô e turbante. “O racismo nos atinge muito a partir da estética. A nossa pele, o nosso cabelo e a nossa forma de usá-lo são constantemente atingidos”, disse.

Conhecimento e autoestima foram temas

A coordenadora da Bamidelê salientou que a invisibilidade dos dados é um sério problema em relação às mulheres negras na Paraíba. “A Paraíba é o sétimo estado onde mais se mata mulheres no Brasil e João Pessoa é a segunda capital do país onde mais se assassina mulheres, mas não sabemos o recorte racial”, avaliou.

Além disso, Terlúcia Silva afirmou que tem trabalhado com os mecanismos existentes. “Temos trabalhado com a Lei Maria da Penha, os serviços que atendem mulheres e o fato de que a mulher negra acaba se encontrando num ponto onde convergem diversas opressões. A Lei 10.639 de 2003 poderia entrar no campo da prevenção, especialmente na evasão de criança e adolescentes negros da escola”, salientou. Em novembro, um grupo de paraibanas deve ir até Brasília para participar da Marcha das Mulheres Negras.

Emoção

Psicóloga e ativista do movimento negro, Socorro Pimentel ficou bastante emocionada com o encontro. “As discussões vão fazer com que no retorno dessas mulheres aos municípios elas possam quebrar as bases”, afirmou.

A agente comunitária de saúde Elza Ursolino veio do Quilombo de Caiana dos Crioulos para participar do encontro. “É um evento importante porque vem dar mais conhecimento e elevar a nossa autoestima. Precisamos sempre nos reeducar para repassar o conhecimento às mulheres que não puderam vir”, afirmou, com a filha de 11 meses no colo. O Quilombo tem cerca de 500 pessoas.

A oficineira Jannifer Xavier ensinou as mulheres a fazerem e usarem tranças nagô e turbantes. “Tornei-me negra. Antes, eu alisava o cabelo e venho de uma família de negras que alisam o cabelo. Quando fiz 13 anos, comecei a me interessar por tranças nagô, fui atrás da história e comecei a fazer em mim mesma e em minhas amigas”, contou.

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