terça, 19 de junho de 2018
Educação
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Professor Trindade narra o ‘voo da coruja’ em sua coluna semanal

João Trindade / 05 de junho de 2016
Foto: Arquivo
No flamboyant de um dos meus vizinhos, vive uma coruja. Alterna a moradia entre aquela árvore e o telhado da minha casa. Muitas vezes, de madrugada, eu e minha esposa paramos para ouvir o cantar melancólico dela ou o riso estridente e um tanto quanto soturno. Mete medo. Mas nunca fez a “rasga mortalha”. Se o fizer, vou embora da casa, porque acredito, piamente, na tradição: Se uma “rasga mortalha” sobrevoa a casa é porque alguém ali vai morrer.

Semana passada, estávamos, à noite, eu, minha esposa e meu filho mais novo (o mais velho mora em Brasília), escutando boa música, na mesa da sala, quando um pássaro grande dá um rasante na cabeça de minha mulher, assustando-a. Seria um gavião? (os gaviões rondam minha casa, à espreita dos inúmeros pássaros que, frequentemente, visitam nosso quintal).

Passado o susto, resolvemos ver onde estava o pássaro e de que espécie era. Era uma coruja. Entrara no quarto do meu filho e se alojara – vejam que interessante! – justamente em cima de uma estante. Pousara num dos volumes daquele móvel. Pois é; cena inigualável, antológica: uma coruja – ela, conhecida como o símbolo da sabedoria – pousada justamente onde? Numa estante. E na casa de um professor. Fiquei regozijado; afinal, era a natureza reconhecendo meu talento. Não resistimos. Meu filho tirou, com o celular, a foto da bichinha; linda, os olhos fixos nos nossos, como se a perguntar: “O que vão fazer comigo?”

Agora, a angústia. O que fazer com ela? Sugeri criarmos, mas minha esposa disse que não aceitaria que bicho livre ficasse preso dentro da nossa casa; ademais, havia os óbices legais. E agora? Ela muda de lugar e vai se fixar em cima de um móvel, agora já na sala em que estávamos. Estava mais próximo da origem, já que entrara por uma janela da sala principal.

Apagamos todas as luzes e, dali a poucos instantes, ela vai embora pela janela, deixando uma imensa saudade. Mas há a foto para lembrarmos. Enfim, o celular serviu para uma aventura sentimental.

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