terça, 25 de setembro de 2018
Educação
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O sofrimento da língua portuguesa na coluna do professor Trindade

João Trindade / 03 de julho de 2016
Foto: Arquivo
O pistoleiro

O Dotô quer saber se matei muita gente? Claro que matei! O nome já diz tudo, não?:

PISTOLEIRO.

Era só me dar o retrato, que o cara já estava morto.

Se matei algum inocente, enganado? Não sei, mas é possível que sim. Uma vez, lá pras bandas de Piancó, matei um cara que era a cópia do outro, mas acho que não era ele.

Dotô, pistoleiro não tem alma. Não tem emoção. O que passou, passou. Sou um profissional. Matei e pronto!

Por que ingressei nessa vida?

Sinceramente, não sei. Acho que foi Deus quem fez assim... Deus não faz médico, advogado, professor?... Me fez pistoleiro!

Não, não teve essa de me vingar da morte do meu pai, como nas histórias de cangaceiro. Não. Nasci para matar e pronto! Como o violeiro nasceu para tocar viola.

E assim como todo profissional se orgulha da profissão, eu me orgulho da minha. Por que não? Não foi Deus quem fez, do mesmo jeito? Deus deve ter tido suas razões...

Pois é, dotô!...

Mas tudo isso faz parte do passado...

Hoje, tô aqui, nessa casinha, numa cidade grande, comparada com o sítio em que eu vivia. Nessa preguiçosa.

Aqui na minha rua não passa um pé de pessoa. Só a molecada, brincando de toca, garrafão e outras brincadeiras.

Para encerrar, quero apenas contar um fato interessante, que aconteceu ontem à noite:

Os meninos da rua – orientados pela mãe – não passam pela minha calçada; desviam.

Mas um deles, um galeguinho de uns 10 anos, se aproximou de mim, me olhou bem nos olhos (é muita coragem olhar nos olhos de um pistoleiro...) e me disse:

- O senhor é pistoleiro?

- Fui.

- Sou louco por histórias de pistoleiro. O senhor me conta uma?

Olhei para aquele pirralho, confesso que intrigado:

- Vá pra casa, menino! Já são nove da noite. Sua mãe deve tá preocupada. Esqueça essas histórias de pistoleiro. Ser pistoleiro não dá nada! Vá estudar para ser doutor!

A MANIA DO “SOFRE”

De vez em quando, a imprensa do “sul” e a da Paraíba (que adora reproduzir o que se pratica lá) inventam certas palavras, que entram na moda, no jornalismo e radialismo (rádio e TV).

Agora é a vez do “sofre”.

Como o verbo sofrer vem sofrendo, ao ser usado de forma inadequada!

Uma vez, vi, num dos jornais da Paraíba:

“Gasolina sofre aumento de “X” por cento.”

Como é? Gasolina “sofre” aumento?

O preço da gasolina aumentou. Portanto, a manchete (desculpe, jornalistas moderninhos, mas ainda prefiro o termo manchete) só poderia ser:

Preço da gasolina aumenta

Ou

Gasolina tem aumento

Simples, não?

Mas o repórter- “redator” preferiu o “sofre”.

Mas o campeão mesmo do absurdo foi uma manchete (desculpem, moderninhos, mas prefiro o termo manchete) de uma das mais conceituadas TVS de João Pessoa:

“Casa em Campina Grande sofre assalto.”

Achando pouco, ainda completaram:

“No momento, não havia ninguém no local.”

Como é? A casa “sofreu” um assalto e, no momento, não havia ninguém no local?

Primeiramente, casa não pode ser alvo de assalto. Uma casa jamais poderá ser assaltada. Pode ser furtada, roubada..., mas assaltada, jamais!

Em segundo lugar:

Sofreu um assalto? É impossível alguém “sofrer” um assalto. Pode até ser alvo de, mas sofrer, jamais!

No fim das contas, quem sofre com isso é mesmo a Língua Portuguesa, que está sofrendo com tanta gente inculta, mas continua bela (a Língua)!

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