quinta, 24 de maio de 2018
Educação
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O emprego do infinitivo na música Índia é o tema da coluna do professor Trindade

João Trindade / 26 de junho de 2016
Foto: Arquivo
“Deixa os meus lábios se unir aos teus” (...)

Nos anos 60, o cantor Paulo Sérgio chegou a ameaçar o reinado de Roberto Carlos, imitando não só a voz (embora nunca tenha admitido isso) como o estilo do “rei”. Roberto e gravadora ficaram incomodados, a tal ponto que aquele mudava, a mando da gravadora, a voz e o estilo. O que era inútil, porque Paulo mudava também. O incômodo foi tanto, que Roberto lançou, em dezembro de 1968 (para fazer sucesso em 69), o LP “O Inimitável”: sem dúvida, o melhor da carreira dele.

Por ironia do destino, Roberto chegaria a gravar, muitos anos depois de Paulo Sérgio, uma música que fizera estrondoso sucesso, na voz do segundo: a famosa guarânia “Índia”.

Tal guarânia tem, num dos versos da segunda estrofe, uma frase ideal para falarmos sobre o emprego do infinitivo; sem dúvida, o assunto mais controverso da nossa gramática; assunto sobre os qual os gramáticos discordam entre si.

Vamos, primeiro, à divergência de interpretação do verso entre Paulo Sérgio e Roberto; para, depois, comentarmos, por completo, tão trabalhoso assunto:

Paulo Sérgio interpreta:

“(...) Fica nos meus braços só mais um instante

Deixa os meus lábios se unir aos teus (...)”

Já Roberto:

“(...) Fica nos meus braços só mais um instante

Deixa os meus lábios se unirem aos teus (...)”

Quem está certo?

Os dois!

A questão é a seguinte:

Quando depende dos auxiliares causativos (deixar, mandar, fazer e sinônimos), ou sensitivos (ver, ouvir, sentir e sinônimos) e vem imediatamente depois de tais verbos ou apenas separado deles por seu sujeito, expresso por pronome oblíquo, deve-se usar o infinitivo impessoal (sem sujeito).

Acontece que, mesmo não vindo imediatamente depois do verbo e, ainda que sem ser expresso por pronome oblíquo, pode-se usar o infinitivo não flexionado.

Nesse caso, está certa a estrutura usada na interpretação de Paulo Sérgio:

“Deixa os meus lábios se unir aos teus.”

Ocorre que, em tal situação, é admissível a forma flexionada (pessoal) quando entre o auxiliar e o infinitivo se insere o sujeito deste, expresso por substantivo.

Aí, tem razão Roberto:

“Deixa os meus lábios se unirem aos teus.”

Conforme se observa, e como já se disse, o emprego das formas flexionadas não flexionadas do infinitivo é uma das questões mais controversas da sintaxe portuguesa. Muitos são os gramáticos que tentam formular regras precisas, mas todas elas se revelam insuficientes.

A verdade é que o emprego do infinitivo é mais estilístico do que gramatical. Vale mais, no emprego dele, questões de ordem estilística, tais como o ritmo da frase, a ênfase do enunciado, a clareza de expressão.

Conclui-se que não se deve falar em regras para o uso do infinitivo, mas de tendências.

Vamos a elas:

Emprego do infinitivo não flexionado (sem plural):

1.Quando é impessoal; ou seja, quando não se refere a nenhum sujeito:

Amar e odiar é próprio do ser humano.

2.Quando tem valor de imperativo:

“Marchar!” Grita o comandante da tropa.

3. Quando precedido da preposição de, tem o sentido passivo e serve de complemento nominal a adjetivos como fácil, possível, bom, raro e outros semelhantes:

São problemas fáceis de se resolver.

4. Quando pertence a uma locução verbal:

Quero ver se lhe posso oferecer este presente.

Quando depende dos auxiliares causativos (deixar, mandar, fazer e sinônimos) ou sensitivos (ver, ouvir, sentir e sinônimos) e vem imediatamente depois desses verbos ou apenas separado deles por seu sujeito, expresso por um pronome oblíquo:

Deixas correr os dias e não te moves?

Vi-os sair sala.

Nossa posição é a de que, ainda que o infinitivo não venha imediatamente depois do verbo, pode, por questões estilísticas, não ser flexionado.

No caso, ocorre, também, a forma flexionada, quando entre o auxiliar e o infinitivo se insere o sujeito deste, expresso por substantivo:

Levantou-se, rápido, e deixou correrem as mãos nervosas no piano.

Emprego da forma flexionada

O infinitivo assume a forma flexionada (tem plural):

1.Quando tem sujeito claramente expresso:

Um dos vizinhos disse-lhe serem os donos daquela terra.

2.Quando se refere a um sujeito oculto, que se dar a conhecer pela terminação verbal:

Meu amigo, é para saíres com vida que deves obedecer às minhas ordens.

3.Quando, na terceira pessoa do plural, indica a indeterminação do sujeito:

Senti arrancarem-lhe a bolsa, quando ela desceu do ônibus.

4.Quando se quer dar a frase, maior ênfase ou harmonia:

Aqueles trabalhadores banhados de suor, encharcados de calor, castigados pela pelo sol, a quebrarem e esbagaçarem as pedras pareciam um monte de escravos, martirizados pelo dono da terra.

Como vimos, a questão do emprego do infinitivo pertence mais ao terreno da estilística do que ao da gramática.

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