quarta, 19 de setembro de 2018
Educação
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Falta de capacitação é obstáculo na educação inclusiva

Lucilene Meireles / 14 de agosto de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
“Os professores não estão capacitados para trabalhar com a gente, e o que vem sendo pregado é uma hipocrisia”. A afirmação é de Renan Bezerra, 17, aluno do 3º ano numa escola pública em João Pessoa sobre a real situação da educação especial inclusiva. Não há dúvidas de que houve avanço nos últimos anos e os números mostram isso.  Na Paraíba, as matrículas de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação em classes comuns saltaram de 58.1% em 2007 para 95.3% em 2014, conforme o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2016, que inclui alunos de 4 a 17 anos. Porém, os dados não se traduzem nos serviços oferecidos e há desafios que precisam ser vencidos. Os alunos são unânimes em afirmar que uma barreira foi rompida com a inclusão em escolas regulares, mas segundo eles, a inclusão, de fato, ainda não existe porque a maioria dos profissionais peca pelo despreparo e preconceito.

Três estudantes do ensino médio, deficientes visuais, analisaram a realidade e apontaram os problemas que conseguem ‘enxergar’. Felipe Veras, 17, aluno do 3º ano, acredita que a base dos novos alunos não será tão boa quanto a que ele teve. “Os alunos com deficiência realmente estão incluídos em escolas de ensino regular, junto com os demais ditos normais. Mas, infelizmente, isso não está sendo verdadeiro. Eu vim do Instituto dos Cegos, onde tive uma base até a 4ª série, porque foi ensino exclusivo para cegos. Hoje, temos o ensino, mas é bem limitado”, avaliou.

Antônio Eduardo de Oliveira, 18, que cursa o 1º ano, foi além. “Não é só falta de preparo. Muitos até são despreparados, mas têm uma vontade enorme de ajudar. Outros, além de não serem capacitados, são preconceituosos e olham com desdém. Um deles esnobou quando soube que escrevo poesias. Fizeram a lei, mas esqueceram de preparar a escola e os profissionais”, constatou. Renan Pinheiro, 20, 3º ano, é deficiente auditivo e sofre com as limitações dos professores. “Existe uma dificuldade muito grande de conversar. O professor tem que repetir muitas vezes. Acho que precisa melhorar muito”.

Apesar de ressaltar a falta de qualificação dos professores para lidar com deficientes, Renan Bezerra, disse que a responsabilidade pela situação não é deles, mas de uma falta de organização antes de colocar o projeto em prática. “Os professores não têm culpa e admitem para nós que não estão preparados”, declarou Renan Bezerra, 17, aluno do 3º ano numa escola pública em João Pessoa. A Lei 13.146/2015, que institui a inclusão da pessoa com deficiência, através do Estatuto específico, garante todas as lacunas apontadas pelos alunos e que precisam ser preenchidas.

As respostas da escola

“Eu diria que hoje a prioridade seria capacitar os professores. Isso preocupa, principalmente quando se trata de inclusão no Ensino Médio. A Funad capacita, mas está aquém. É como se o aluno nunca fosse chegar ao EM e à universidade. Fica difícil para eles”, disse Sílvia Patrícia Nunes Silva, coordenadora de Educação Especial da escola onde estudam os alunos entrevistados.

“O que acontece é que o processo de inclusão está em fase de construção. Estamos fazendo um esforço muito grande no sentido de fazer com que os alunos não sofram preconceito e para que todos saibamos como lidar com eles”, afirmou João Oliveira Perônico, professor da escola onde estudam os entrevistados.

Não tem mágica

As melhorias que precisam ser feitas nas escolas regulares para promover a real inclusão de alunos com deficiência vão desde a infraestrutura, acessibilidade, materiais, laboratórios especializados, mas em especial, na preparação dos professores. É o que pensa o especialista em Educação, Luiz de Sousa Júnior.

“Precisamos melhorar muito mesmo para atender essa população de crianças deficientes. Sobretudo, na questão do treinamento e qualificação de professores. São questões centrais que debilitam um pouco a oferta. Tem aumentado o acesso, em especial, na escola pública. Isso mostra que precisamos de mais recursos para investir no setor público para poder trabalhar”, analisou.

Para ele, é preciso um olhar mais atento para as crianças menores. “Tem que se voltar também para crianças pequenas, porque hoje a atenção é mais do Fundamental em diante. É essencial, nesse setor, para que tenham uma base. A deficiência auditiva, em geral, só vai ter a base na escola, mas é preciso ter atenção na creche ou pré-escola, principalmente as públicas, porque o setor privado se volta mais para o lucro”, disse.

Luiz Júnior observou, porém, que é preciso tempo e planejamento para as escolas se adequarem. “Nada acontece num estalar de dedos. Tem que ter planejamento, avaliar qual é o publico alvo, quais são as necessidades diante de cada deficiência, se tem mais cego, surdo, Down, autista. É preciso planejar para trabalhar cada um. Não vai resolver de uma hora para outra. Não tem mágica.

“Todo prejuízo possível pode ser acarretado a esses alunos. Amplia o acesso, mas não dá a essas crianças a oportunidade de aprendizado adequado. É um avanço estar na escola, porém é preciso melhorar a aprendizagem e a sociabilidade. É necessário um trabalho muito direcionado, com treinamento, mas formação inicial na universidade”, disse Luiz de Sousa Júnior, especialista em Educação.

Capacitação não acompanha ritmo da inclusão

A preparação dos profissionais que atuam nas escolas para lidar com alunos que têm algum tipo de deficiência não tem acompanhado o ritmo da inclusão, ou seja, a demanda está cada vez maior, e o número de professores qualificados não tem crescido na mesma proporção, conforme avaliou André Louis Carvalho dos Santos, coordenador de Educação Especial, da Secretaria de Educação (Sedec) de João Pessoa.

“O processo de inclusão de alunos especiais nas escolas regulares é muito recente e veio de forma avassaladora. Ainda faltam profissionais capacitados. Essa capacitação está sendo realizada, mas pelo fato da inclusão estar acontecendo de forma muito forte, a formação não está conseguindo acompanhar o nível do crescimento”, disse.

Para o coordenador, a realidade traz consequências para os estudantes, mas nas escolas municipais, algumas medidas vêm sendo tomadas para contornar o problema. “Isso acaba interferindo, de certa forma, mas não seria tão prejudicial, porque o município conta salas de recursos multifuncionais, onde professores já capacitados trabalham alunos com deficiência de forma a minimizar essa carência de pessoal capacitado”. Ele disse que a capacitação dos professores é feita de forma contínua.

A equipe é formada por coordenador, psicóloga, fonoaudióloga, pedagoga, além da equipe administrativa. Nas escolas, há profissionais como cuidadores, intérpretes para alunos surdos, professores de AEE e de Libras que ensinam todos os alunos e não só os especiais. A educação especial conta com o Transporte Escolar Acessível (TEA) com ônibus acessíveis, que auxiliam no transporte da criança, levando-a de sua casa para a escola ou Crei e depois de volta para casa.

1 mil

É a quantidade de alunos com algum tipo de deficiência atendidos escolas de ensino fundamental e Centros de Referência em Educação Infantil (Creis) de João Pessoa. Todas as unidades oferecem a inclusão do aluno deficiente. A maior incidência são as autistas e as que têm Síndrome de Down.

Política recente é desafio

Os desafios para promoção da inclusão escolar são muitos e, entre os problemas enfrentados pela educação especial na perspectiva de educação inclusiva está o fato de ser recente a política que a institui, conforme a coordenadora de Educação Especial Inclusiva, do Centro Integrado de Apoio à Pessoa com Deficiência (Funad), Ana Paula Rodrigues.

Ela explicou que, em 2008, a Política Nacional de Educação Especial passou a assegurar recursos e serviços para um sistema de ensino inclusivo. “Esta política, portanto, tem apenas 8 anos de existência e enfrenta as dificuldades presentes em um sistema de ensino cujas escolas estão passando, de forma geral, por problemas educacionais”, afirmou. A política, segundo a coordenadora, garante ainda o direito de formação continuada para professores.

“Este é também um desafio. Na sua formação inicial, os professores não têm, na matriz curricular dos cursos superiores, conteúdo programático que discuta com aprofundamento a temática da educação especial, o que vem sendo promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Educação e da Funad”, afirmou.

Ana Paula garantiu que todas as escolas da rede estadual são inclusivas e as deficiências são assistidas de acordo com suas especificidades. Para alunos surdos, há intérpretes e instrutores de Libras. Alunos com deficiência visual contam com transcrição em braille do material didático e tecnologias como a lupa. Se necessário, há profissionais de apoio para colaborar com a permanência do aluno na escola. Entre as deficiências assistidas, o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é o mais recente. 

Autista evolui com atendimento público em Cabedelo 

A costureira Valdemira Gomes da Silva, está feliz da vida com a evolução de sua filha Alexia, de 4 anos. Autista, a garota tinha mudanças repentinas de comportamento por conta do transtorno, e só depois de iniciar um tratamento específico e entrar na creche, melhorou de forma considerável e começou a falar as primeiras palavras.

“Ela está na creche e na inclusão, além de fazer acompanhamento com fonoaudiólogo. Tem também uma cuidadora que ajuda bastante na creche, incentiva a utilizar os brinquedos, estimula a leitura, embora ela ainda não saiba ler. O desenvolvimento está ótimo”, afirmou.

Em casa, também há incentivo em casa. “Esse papel não é só da escola. Tenho um painel com alfabeto colorido e animais. Retiro tudo todas as manhãs e, quando acorda, ela sente falta. Então, ajudo a recolocar. Ela está realmente vivendo esse processo de inclusão, e tenho uma perspectiva boa para o futuro. Acho que vai dar tudo certo”, completou Valdemira.

Sentindo na pele

Enquanto professores têm dificuldades para lidar com alunos com deficiência, a estudante Gleyciane Silva, que cursa o 3º do Ensino Médio junto com Renan, Felipe e Antônio Eduardo é a companhia dos garotos e dos demais alunos com deficiência da escola onde estudam.

“Não tenho deficiência, mas estou o tempo todo com eles. Há dois anos, foi feita uma conscientização na escola. Colocamos vendas nos olhos e sentimos na pele como é viver sem enxergar. Para mim, funcionou muito. Eu não ajudo por obrigação, mas porque gosto e quero ver o sucesso de cada um. Sou a mãezona deles”, declarou a menina.

Brasil

As matrículas de crianças e jovens em classes comuns de Educação Básica cresceram quase 130% entre 2007 e 2014, passando de 306.136 para 698.768, resultado que se deve à implementação da Política Nacional de Educação Especial, a partir de 2008.

Desafios

A universalização envolve desafios, entre eles, a concepção de Educação inclusiva, continuidade dos investimentos na formação de educadores, no aprimoramento das práticas pedagógicas, na acessibilidade arquitetônica e tecnológica e na criação de mais salas de recursos multifuncionais, de acordo com o Todos Pela Educação.

Paraíba - Educação especial/inclusiva – matrículas em classes comuns, classes especiais e escolas especializadas – 2014































































UF/NE/Brasil Total Classes comuns Classes especiais Escolas especializadas
Paraíba 16.551 15.773 124 654
Nordeste 214.963 197.638 6.358 10.967
Brasil 886.815 698.768 27.004 161.043


Alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação matriculados em classes comuns – 2007 a 2014































































































UF/NE/Brasil 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
Paraíba 58.1 70.9 73.4 86.5 92.3 94.3 94.9 95.3
Nordeste 53.0 59.3 68.8 79.6 86.8 88.9 90.4 91.9
Brasil 46.8 54.0 60.5 68.9 74.2 75.7 76.9 78.8


O que diz a Lei

Art. 27.  A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem.

Parágrafo único.  É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação.

Art. 28.  Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar:

- O sistema educacional inclusivo em todos os níveis;

- O aprimoramento dos sistemas educacionais para garantir acesso, permanência, participação e aprendizagem com serviços que eliminem barreira e promovam a inclusão plena.

- Projeto pedagógico que institucionalize atendimento educacional especializado.

- Oferta de educação bilíngue, em Libras,

- Pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas

- Adoção de práticas pedagógicas inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada de professores e oferta de formação continuada para o atendimento educacional especializado;

- Formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio

- Inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnológica, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento

- Oferta de profissionais de apoio escolar;

- Às instituições privadas, de qualquer nível e modalidade de ensino, devem atender à Lei, sem cobrança de taxa extra.

Fonte: Lei 13.146/2015/Capítulo IV – Do direito à educação.

 

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