terça, 25 de setembro de 2018
Educação
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De filhos para os pais: língua tupi renasce entre índios potiguaras na Paraíba

Bruna Vieira / 17 de abril de 2016
Foto: Assuero Lima
Há cinco séculos, a Paraíba era habitada pelos índios. Hoje, eles não passam de 0,5% da população do Estado, segundo o IBGE. Entre as 13 aldeias potiguaras na Baía da Traição, somente sete pessoas falam o tupi. Eles aprenderam com um professor da Universidade de São Paulo (USP), há 13 anos, e hoje ensinam as crianças nas escolas.

A herança que deveria ser repassada de geração a geração tomou o caminho inverso: os filhos levam aos pais as palavras novas ensinadas na escola. A língua renasce, mas de forma precária. As poucas aulas não são para todos e faltam materiais didáticos.

Na Paraíba, existem duas etnias indígenas: os potiguaras (litoral norte) e os tabajaras (sul) e alguns poucos remanescentes estão espalhados pelo interior do Estado. Na aldeia Tracoeira, em Baía da Traição, menos da metade dos alunos estudam tupi: somente 16 dos 42 do 4º e 5º ano.

Filipe Galdino não tem os traços físicos predominantes entre os índios. É filho de pai branco com mãe índia. Só que a avó materna, também não era indígena. O que o garoto de 11 anos luta para preservar é a cultura de seu povo, através da língua tupi. A irmã, que cursa enfermagem, estudou o dialeto na escola, mas por não ter com quem praticar, fala bem pouco. A tarefa de repassar o conhecimento é do jovem.

É como aprender inglês

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Na Aldeia Tracoeira, a diretora da Escola Municipal João Bezerra Falcão, Natali Galdino, compara o ensino do tupi com o inglês. “Com poucas aulas, as crianças estudam o ano inteiro, mas, ao final, aprendem pouco. E sem praticar, acabam esquecendo. Ainda assim, é um avanço. A língua estava morta e hoje, aos pouquinhos, estamos aprendendo. O ensino deixa muito a desejar, porém, está dando resultados. Aqui, pedi para o professor esticar a aula mais meia hora”, disse.

Segundo ela, os alunos só têm aulas, a partir do 5º ano até o final do ensino médio. “É só uma hora de aula por semana e a última vez que recebemos livros foi em 2003. Muitos não foram devolvidos ou estragaram. Só quem tem material didático são os professores e isso é ruim para o aprendizado”, contou a diretora da escola.

Ela reitera que o ideal mesmo é que as crianças pudessem aprender desde pequenas, porque pegariam com mais facilidade. “Mas, são poucos professores. Seria bom se houvesse um curso para todos os professores na ativa, assim, todos estariam capacitados e mais pessoas aprenderiam. Dessa forma, poderia aumentar a quantidade de aulas. Enquanto há apenas uma de tupi, temos português de segunda à quinta. Falta investimento. Para que os que sabem ensinem os demais professores tem que pagar não é? Não vão trabalhar de graça”, sugeriu.

Tabajaras: sem terra e sem Língua

Entre os remanescentes do povo tabajara, nenhum fala o tupi. Tudo é mais difícil para eles, que ainda estão em processo de reconhecimento e não tem terras próprias. Para o cacique Ednaldo dos Santos, a recuperação da língua pelo povo potiguara é uma esperança para que no futuro eles também tenham acesso. “Ela está perdida, mas está se recuperando com os potiguaras. Nós ainda não recebemos o ensino, porque estamos brigando pelo território e é um processo longo. O Governo Federal não constrói onde não tem domínio da União. Os recursos públicos estão ligados à legalidade da terra. Isso dificulta muitas coisas, como saúde e educação. Em pleno século XXI, ainda temos que comprovar e disputar um território que já é da gente há tanto tempo. Vamos lutar muito para conseguir resgatar a língua, um desejo que nos foi arrancado”, afirmou.

Menos de 10% dos tabajaras estão concentrados em duas aldeias. Os demais estão espalhados pelas cidades. Em João Pessoa, 12 bairros. “Até 1890 ainda mantínhamos a língua. Com a chegada da família Lundgres, que matou muitos índios, a língua se perdeu. Eles eram obrigados a dizer que não eram índios, não podiam falar tupi ou dançar o Toré. De 40 mil, passamos para 5 mil e agora só 1 mil. Estamos em processo de recrutamento. Em 2012, brigamos com a fábrica Elizabeth, que deu terra. Estamos fazendo uma aldeia para os que quiserem vir morar conosco, para nos fortalecer. É importante nesse processo de luta, em que perdemos muitos. Poder dançar, se pintar. A terra faz isso. É um processo político, pode ou não demorar”, relatou o cacique Ednaldo.

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