segunda, 21 de agosto de 2017
Educação
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Abandono da classe média pesa contra o desempenho do ensino público no ENEM

Maurílio Júnior / 06 de agosto de 2015
Foto: Arquivo
A divulgação da pontuação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2014 por escola trouxe à tona mais uma vez a disparidade entre as escolas privadas e públicas do País. Na Paraíba, o recorte mostra que das vinte maiores médias, dezoito pertencem às escolas privadas, enquanto apenas duas são do ensino público. A exceção fica por conta da rede pública federal, uma amostra pequena de ensino público de boa qualidade mantido pelo governo federal que organizam todos os anos exames seletivos bastante concorrido - e acabam filtrando os melhores alunos.

Em entrevista ao site do Jornal Correio da Paraíba, o diretor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Wilson Aragão, enfatizou que a disparidade entre o desempenho da rede privada em relação ao da rede pública, está ligada dentre muitos fatores, ao nível socioeconômico.

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“A classe média está abandonando de vez a escola pública. E isso tem levado um prejuízo muito grande para o desempenho do ensino público. As crianças periféricas, que só tem acesso a rede pública de ensino, dificilmente terá a estrutura de ter um desempenho à altura das necessidades de hoje. Uma criança de até sete anos que não tem uma boa alimentação terá dificuldades para realização das sinapses e dos estudos e investigações. E o estudo de hoje é mais investigado do que afirmativo”, afirmou.

A desvalorização do professor é outro motivo para esse resultado. “Além disso, o que vemos hoje são professores desmotivados, que chegam a trabalhar até em quatro escolas, pois o salário de uma não é estimulante. Isso resulta não falta de uma relação de afetividade do professor com o aluno, num maior direcionamento durante o ensino”, acrescentou.

Paralelo a isso, o diretor aproveitou para criticar o governo, que para garantir um padrão mínimo de qualidade no ensino, teria que investir três vezes mais por aluno – de acordo com dados da Campanha Nacional pelo Direito à Educação para definir o Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi).

“Estamos assistindo uma inversão de valores. Hoje, o valor de um presidiário mensal é correspondente a três vezes ao investimento anual em um estudante da rede pública. O Estado brasileiro, seja no âmbito federal, estadual ou municipal, diminui o compromisso com a inclusão social”, disse.

Apesar do cenário atual desanimador, Wilson Aragão acredita que há alternativas para tentar conter a disparidade entre as classes socioeconômicas.

“Sou sempre um otimista com a educação. Por exemplo, as creches com o tempo integral têm papel fundamental. A criança tem nessa fase inicial a necessidade de assegurar a formação da estrutura interna. Ter uma alimentação saudável e potencializar a experiência de uma criança com as outras é importantíssimo”, analisou.

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