domingo, 18 de fevereiro de 2018
Educação
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“A escola estraga o aluno” é o título da coluna do professor Trindade

João Trindade / 17 de julho de 2016
Foto: Arquivo
A escola estraga o aluno

Nas minhas aulas, seja de Português, ou de Introdução ao Direito, digo aos alunos que esqueçam duas expressões: sempre e a mesma coisa.

A escola brasileira estraga o aluno com “regras” excessivas, chavões, mitos e toda qualidade de “feitiçarias”, “macetes”, que botam o aluno a perder.

Quem já não ouviu o professor de Português dizer que o aposto vem sempre entre vírgulas? Que o “lhe” é sempre objeto indireto?

Pior é que não é. Há apostos que não admitem vírgula; por exemplo, o aposto especificativo. O “lhe”, em determinados contextos, pode ser adjunto adnominal, quando aparece em frase que dê ideia de posse, como também (embora seja mais raro) complemento nominal.

Exemplificando:

A cidade de Campina Grande é hospitaleira.

Não poderia haver vírgula separando o termo Campina Grande, porque tal expressão é aposto especificativo.

O Rapaz agarrou a namorada e beijou-lhe a boca.

No contexto citado, o LHE é adjunto adnominal, e não objeto indireto.

TIRANDO “DÚVIDAS” NA PROVA

Outro problema muito grave, provocado pela escola (sobretudo a do ensino médio) é não ensinar o aluno a se portar na prova.

Na hora da prova, o aluno quer que você interprete os enunciados para ele, quando ele é que deve fazê-lo. Hora de tirar dúvida é na aula; na hora da prova, o professor não deve fazer quaisquer esclarecimentos, a não ser aqueles estritamente necessários, quando a prova tiver imperfeição. E, ainda assim, o próprio professor deve, caso haja imperfeição, resolvê-la, na correção, sem prejudicar o aluno.

É preciso que o aluno se conscientize de que numa prova de concurso, qualquer que seja ele, o candidato não poderá chamar o fiscal para tirar “dúvidas” de interpretação. Já diziam minhas professoras do primário: “A interpretação faz parte da prova”.

Infelizmente, na maioria dos colégios de João Pessoa, a direção leva, em dia de prova, o professor, de sala em sala, para tirar “dúvidas” sobre a prova.

Outro problema que encontro nas salas de aula é o aluno entregando prova a grafite. Não se entende como é que um aluno chega à universidade e ainda pergunta se pode fazer prova a grafite. Não se faz prova a grafite.

Seria providencial, pois, que as escolas orientassem, desde cedo, o aluno a fazer prova com esferográfica preta ou azul, como é exigido nos concursos. Nada de caneta lilás, verde, coraçõezinhos desenhados, etc.

E A REDAÇÃO?

A redação é um caos; uma balbúrdia. Professores corrigem sem qualquer critério (“eu quero assim...”), esquecendo-se de que há critérios universais para a correção de redações.

De modo que o aluno fica louco: o professor de redação da primeira série “quer” uma redação redigida de certa maneira; o da segunda, já “quer” de outra e o da terceira, esse geralmente mais radical, já “quer” de outra.

Ai vêm aquelas orientações ridículas: número X de parágrafos; não pode começar a redação com certas expressões; não pode repetir palavras; não pode usar a palavra coisa; não pode... não pode... não pode.

Quem disse que em redação não pode haver repetição de palavras ou de expressões? Ao contrário: em determinados contextos, fica até belo.  Será que esses professores não sabem que existe uma figura chamada anáfora?

Não se pode usar a palavra coisa? E como substituir a frase: há coisas na vida que não podem ser explicadas? Ache outro termo para substituir a palavra coisa nesse contexto, leitor. Duvido.

E, para piorar, ainda existem aqueles que dizem ao aluno que numa redação não se deve usar figuras de linguagem.

Aí é o máximo do absurdo! O aluno deve usar sim, as figuras; desde tenha um bom domínio do assunto, goste de usar construções literárias. Em suma: tenha contato frequente com textos, o que, convenhamos, só uma minoria tem. Mas que pode, pode. Se o aluno domina o assunto figuras (falei em dominar; não em decorar definições), deve usar, sim. Que mal fará uma metáfora no texto?

A escola precisa mudar.

DICA DA SEMANA

Quando usarmos dois advérbios terminados em mente, relativamente à mesma palavra, devemos colocar o sufixo só na última.

Exemplo: “Fale a sua verdade terna e mansamente...”

 

 

 

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