segunda, 18 de junho de 2018
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Rio Jaguaribe escancara degradação ambiental

Aline Martins / 22 de agosto de 2016
Foto: Assuero Lima
Com extensão de 21 km e o maior em trecho urbano em João Pessoa, o Rio Jaguaribe, “agoniza” com o descaso do poder público e a falta de educação de parte da população que insiste em determinar o espaço como fim para os resíduos domésticos. Não é novidade que as margens de rios, principalmente nas grandes cidades, foram ocupadas por habitações precárias e sem infraestrutura. Por conta disso, dejetos domésticos não apenas dessas moradias, mas de outras de bairros sem saneamento, acabam caindo na rede pluvial e contaminando os rios. Além das águas de esgotos, o Jaguaribe ainda sofre com o lixo no entorno. No entanto, não é apenas dragagem ou retirada de vegetação das margens dos rios que resolverá a problemática do Jaguaribe. É necessário um projeto de revitalização do espaço hoje marginalizado pelo esquecimento. “É possível sim salvar o rio”, disse o professor doutor, do Departamento de Sistemática e Ecologia, Gilson Moura.

Quem conheceu o Rio Jaguaribe antes da situação de degradação ambiental que hoje passa, sabe a importância que ele teve para diversas pessoas, principalmente daquelas que retiravam dessas águas o sustento semanal das famílias. O pedreiro Edvaldo da Silva, 53 anos, cresceu às margens do Rio Jaguaribe, no trecho no bairro de Manaíra, na Capital. Ele tomava banho e até ingeria água de qualquer parte do rio sem medo de ter adquirir doenças quando era jovem. “Hoje ninguém é doido em tomar porque é contaminada de esgoto”, contou. Ele disse que além de tomar banho e beber a água também pescava e vendia os peixes para poder levar dinheiro para casa.  Hoje, ele mora na comunidade Boa Esperança, no bairro do Cristo Redentor, onde tem a nascente do Rio Jaguaribe, vive atuando como pedreiro, mas quando não tem serviço recorre à pesca em outros trechos para poder ganhar dinheiro.  Ele e outros moradores fizeram um mutirão para retirar a vegetação na nascente do rio. “Aqui a gente consegue pegar ainda água limpa para o consumo”, frisou.

O Rio Jaguaribe nasce hoje em um trecho da comunidade Boa Esperança, no bairro do Cristo Redentor e segue por vários bairros até desaguar no Rio Paraíba. No bairro São José, as moradias no entorno do rio foram retiradas e, realizada uma limpeza. Mas o mau cheiro do esgoto, que é despejado no local, também é um grande problema, assim como alguns resíduos sólidos que já começam a ficar presos nas matas ciliares. A comerciante Lucicleide Silva mora há mais de 30 anos no local e reclama que as ações feitas são apenas paliativas. “Eles vem e fazem uma limpeza e acabou. A gente vive esquecida. De noite é muita muriçoca. A gente já se acostumou com o fedor”, disse.

Al-Rio-Jaguaribe--lixo-ao-lado-da-ponte-da-Ept-Pessoa-sobre-o-Rio-e-prox-ao-Sup-Pao-de-Acucar-ASL_7344-(147)Nesse bairro, algumas moradias já foram retiradas porque em períodos de chuvas, constantemente ficavam inundadas. Há anos o Jaguaribe sofre com deteriorização provocada por diversos fatores que tem contribuído para a degradação. Segundo o professor doutor do Departamento de Sistemática e Ecologia, do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Gilson Moura, todos os rios que cortam a cidade de João Pessoa estão comprometidos, por conta das ligações clandestinas, lançamentos de dejetos e vazamentos de tubulações de esgotamento no canal pluvial. Ele contou que orientou um trabalho de monografia de um estudante onde avaliou o efeito da Mata Atlântica, dentro da reserva da Mata do Buraquinho, sobre o rio e isso mostrou que, nesse ponto as águas do rio passam por um alívio, ou seja, não sofrem contaminação, justamente por conta da influência desse bioma no trecho.

Ainda de acordo com o estudioso, o maior impacto no Jaguaribe é causado pela Cagepa que lança, diariamente, no trecho da comunidade Padre Hildon Bandeira, no bairro da Torre, libera milhares de litros de esgoto dentro do rio. “João Pessoa é uma cidade privilegiada em termos de recursos aquáticos. Nós temos vários rios aqui. Infelizmente todos eles estão comprometidos e o maior problema deles é exatamente a questão dos esgotos domésticos tanto provenientes de ligações clandestinas diretamente para portos aquáticos como vazamentos que ocorrem da própria Cagepa e cai na rede pluvial e depois cai no rio”, disse. Em um trecho da Avenida Epitácio Pessoa, no bairro de Miramar, a reportagem flagrou um esgoto sendo despejado no rio.

“Aqui a gente tinha todo tipo de peixe e também camarão. Quando a gente lançava a rede puxava um bocado de camarão. Em casa, a mulher já estava preparando as panelas para cozinhar”, disse Edvaldo da Silva, morador da comunidade Boa Esperança.

“O rio Jaguaribe, a maior parte, não diria morto, mas está quase isso. É possível revitalizar, é possível recuperar o rio? É. Se a gente retirasse o esgoto de imediato, começasse a fazer a recomposição da mata ciliar e começasse a trabalhar junto à comunidade” , dissde o professor Gilson Moura

Rio Mandacaru recebe águas do Jaguaribe e também sofre com a poluição

Em um trecho que fica na Avenida Tancredo Neves, no bairro dos Ipês, verifica-se o Rio Mandacaru, que recebe águas do Rio Jaguaribe, também contaminado. O Jaguaribe é desviado nas imediações da BR-230, no bairro de Manaíra. Além do lixo doméstico (garrafas peti, de água sanitária, sacolas plásticas, por exemplo), ainda é possível encontrar colchões, televisores quebrados e casco de geladeira abandonados. Até embaixo da ponte, o rio flui, mas não consegue atravessar por encontra uma grande concentração de lixo no local. Para o estudante Marcos da Silva, 18 anos, o abandono acontece porque o poder público ainda não se interessa pela questão ambiental.

“Os políticos não ligam para isso porque não é fruto para obtenção de votos. Aliado a isso temos a falta de consciência da população que ainda tem aquela cultura de que deve jogar o lixo nos rios”, frisou. Nesse trecho, segundo o pesquisador, o Jaguaribe é desviado para Mandacaru que vai até a comunidade do Renascer, no município de Cabedelo. “Muitas pessoas dependiam desse rio. Eu ouvi de um morador que antigamente se pescava na porta de casa, hoje tem que ir para o Paraíba e só voltar no dia seguinte”, comentou.

Pontapé para salvar o Jaguaribe: Projeto visa acabar com degradação que sufoca rio

Um projeto com apoio de pesquisadores dos cursos de Ciências Biológicas, Geociências e Engenharia Ambiental da UFPB visa acabar com o problema que afeta o Jaguaribe. De acordo com o professor doutor Gilson Moura, a proposta de revitalização é aplicar inicialmente o projeto em 500 metros do rio. Caso em um período de dois anos, se o retorno fosse positivo se aplicaria em outra extensão e assim até o trecho total do rio. Isso serviria de modelo. O que seria feito: avaliação da análise da água, retirada do lançamento de esgotos, recuperação da mata ciliar e trabalho com a comunidade. “Eu falei com as pessoas da comunidade, eles têm interesse, porque se identifica com o rio ali ha muito tempo”, comentou.

Esse projeto foi apresentado há aproximadamente há dois anos a gestão municipal e na época havia se comprometido a conversar com os órgãos poluidores como a Cagepa, para retira os esgotos do rio e recolher o lixo no entorno. “O pessoal da botânica daqui iria fazer essa recomposição, iria ter um outro grupo que iria trabalhar a questão junto as comunidades”, frisou. No entanto, o projeto não obteve êxito. Houve questionamentos sobre o apoio de uma Organização Não Governamental. Mas Gilson Moura informou que não vai desistir de aplicar o projeto e salvar o rio. Ele contou que a poluição do rio causa diversos problemas de saúde à comunidade como os gastrointestinais e dermatites.

Ainda de acordo com Gilson Moura, é necessário não apenas um trabalho do poder público, mas também de educação com a população para que se evite a ligação doméstica a rede pluvial. Ele explicou que há vários trechos de alívios do Rio Jaguaribe que mostra que é possível recuperar o rio. “Ali na Mata do Buraquinho a poluição é muito alta, principalmente de bactérias de origem fecal. Devido às plantas que tem ali tem uma retenção enorme da matéria orgânica que vem junto. Logo depois dessa Mata, ainda dentro, a gente mede as bactérias e há uma redução de 99%, ou seja, o rio dá um alívio, em termos de matéria orgânica, mas acontece que determinados componentes trazem muito prejuízos também. Se você olhar a água pode estar limpa, mas na verdade não estar. Mas ela dá um alívio. Quando sai da mata, Pedro II, cai na São Rafael que é outro problema”, comentou.

Ações como dragagem do rio é apenas uma ação paliativa para contenção de enchentes, sendo necessária uma medida mais eficaz para reter a degradação ambiental. Por conta da grande concentração de elementos químicos devido à decomposição do material que é lançado dentro do rio, o pesquisador informou que isso provoca o aparecimento de uma planta chamada baronesa, que encobre o rio e impede que a luz solar penetre e os microorganismos possam realizar a fotossíntese – responsável pela produção do próprio alimento.

“Antes se usava para a pesca. Hoje você vai é esgoto a céu aberto. Esse esgoto vem desde a nascente do Rio Jaguaribe. Dez metros depois da nascente você tem uma rede pluvial, mas como tem vazamento cai 10 metros da nascente. O que faz com o rio Jaguaribe é de uma maldade e é um principal rio da Capital”, falou o professor Gilson. 

O que diz a Semam sobre a preservação do Rio Jaguaribe

De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente (Semam), em parceria com empresas concessionárias de automóveis, o órgão está promovendo o replantio de mudas de árvores na área do Rio Jaguaribe, no conjunto Vale das Palmeiras. O replantio segue o determinado ma lei nº 11.878, de fevereiro de 2010, que estabelece as condições para o plantio de árvores por empresas concessionárias de veículos motorizados zero quilômetro. Foram replantadas 2 mil e cem mudas de árvores, entre elas espécies como ingá, cupiúba, pitanga e araçá. As mudas foram compradas pelas empresas concessionárias.

Al-Rio-Jaguaribe-cachoeira-de-esgoto-ao-lado-do-sup-Pao-de-Acucar-da-Ept-Pessoa-ASL_7344-(201)Recuperação da mata ciliar

O replantio é uma medida de compensação ambiental. A área, nas margens do Rio Jaguaribe, foi escolhida pelos técnicos da Semam. A mata ciliar fica às margens dos rios e tem função de proteger a área. O nome “ciliar” faz uma referência aos cílios, que protegem os olhos. A cobertura vegetal nas margens dos rios tem a função de manter o equilíbrio ecológico, protegendo água e solo, reduzindo o assoreamento e a força da água que chega aos rios. Também serve para fornecer alimento e abrigo para a fauna e formam uma barreira natural contra a disseminação de pragas, absorvendo e fixando dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelas mudanças climáticas do planeta.

Cagepa já foi multada em pouco mais de R$ 2,8 milhões por lançar esgoto no ambiente

Ainda segundo a Semam, este ano o órgão aplicou doze autos de infração referentes a esgotos, lançados de forma inadequada no meio ambiente. Desses doze autos, seis foram aplicados à Companhia de Águas e Esgoto da Paraíba (Cagepa), que até nove de junho foi multada em R$2.851.130,90. No ano passado, a Secretaria aplicou 34 autos de infração por lançamento de esgotos de maneira irregular. Desses 34 autos, onze foram aplicados à Cagepa, que foi multada em R$3.722. 989,73.

Denúncias de ligações irregulares ou despejo de resíduos nas ruas

- Semam: 3218-9208 ou 0800-281-9208 (das 7h às 22h).

Esgoto clandestino 

Punição para quem liga clandestinamente seus esgotos: Os procedimentos adotados pelas equipes de fiscais vão desde uma simples notificação para corrigir o problema à lavratura de um auto de infração, com multa de R$ 9 mil a R$ 49 mil, dependendo se o grau for considerado leve ou grave. Esse valor dependerá também da cotação da UFIR.

Áreas com maior número de ocorrências de esgotos clandestinos:

- Bairros da orla marítima;

- Mangabeira;

- Bancários

Cagepa

A Companhia de Água e Esgoto da Paraíba (Cagepa) informou que enviou uma equipe até os locais citados na reportagem, mas não foi verificado nenhum lançamento de esgoto por parte das redes da Cagepa

 

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