quarta, 20 de junho de 2018
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9,5 mil casos de esquitossomose na Paraíba em cinco anos

Aline Martins com assessoria / 03 de setembro de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Em cinco anos, 9.578 paraibanos foram detectados com esquistossomose – uma doença infecto-parasitória de veiculação hídrica causada pelo verme schistosoma mansoni. O tratamento ainda é por meio de remédios encontrados na rede básica de saúde e a prevenção é evitar o contato direto com a água contaminada pelo parasita. Na Paraíba, há 67 municípios que compõem a área endêmica. Num período de oito anos, 109 pessoas morreram vítimas da doença no Estado. Este ano, já chega a cinco óbitos. Por causa dessa realidade, que se repete em outras partes do País, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em parceria com a empresa Orygen Biotecnologia S.A desde 2011 desenvolve estudos para uma vacina inédita para prevenir a doença, a Sm14. Até dezembro ocorrem os estudos clínicos de fase II no Senegal, na África. A análise ocorrerá nesse período porque são os meses considerados de maior endemicidade no território africano. A conclusão e os resultados dos estudos estão previstos para 2017.

A Fase I dessa vacina foi realizada em 2011, no Rio de Janeiro, com pessoas saudáveis, ou seja, em áreas não endêmicas. Segundo a Fiocruz, a vacina é um dos projetos de pesquisa de desenvolvimento em saúde priorizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que visa garantir o acesso da população dos países pobres a ferramentas de medicina coletiva com tecnologia de última geração. A esquistossomose é considerada uma das doenças parasitárias mais devastadoras socioeconomicamente, atrás apenas da malária. Já a fase II A será realizada em parceria com a organização não-governamental senegalesa Espoir pour La Santé, sendo coordenada em campo pelo pesquisador Gilles Riveau, do Instituto Pasteur de Lille, na França, e diretor geral do Centre de Recherche Biomedicale Espoir pour La Santé.

Estão previstas auditorias independentes de instituições locais, seguindo as regras internacionais de pesquisa com seres humanos e que incluirão o acompanhamento por um conselho assessor composto por especialistas de vários países. Os testes acontecerão entre setembro e dezembro de 2016, período que corresponde a mais alta endemicidade da doença em território africano. Tanto o protocolo de pesquisa quanto a documentação regulatória foram submetidos às autoridades senegalesas.

A vacina é desenvolvida e patenteada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e foi produzida a partir de um antígeno – substância que estimula a produção de anticorpos, evitando que o parasita causador da doença se instale no organismo ou que lhe cause danos. Foi utilizada a proteína Sm14, sintetizada a partir do Schistosoma mansoni, verme causador da esquistossomose na América Latina e na África. Baseada em uma tecnologia inovadora, a vacina Sm14 possui patentes depositadas no Brasil, Europa, Estados Unidos, Austrália, Japão, Nova Zelândia, África do Sul, Canadá, Cuba, Egito e Índia, além das organizações africanas de propriedade intelectual ARIPO e OAPI.

Os estudos clínicos da Fase II A serão realizados em adultos moradores da região endêmica no Senegal, na África, local atingido simultaneamente por duas espécies do parasito Schistosoma, causador da doença. Essa característica, que não existe em nenhuma região brasileira, é muito importante para que se possa verificar a segurança da Vacina Sm14 com escopo ampliado em relação a estes dois agentes. A área escolhida é hiperendêmica, ou seja, possui alta taxa de prevalência da doença, que afeta a população de forma continuada. Nessa etapa, a segurança do produto será avaliada, bem como a sua capacidade de induzir imunidade nas pessoas vacinadas. Está prevista a participação de 350 voluntários, entre adultos, inicialmente, e em crianças, ao longo de três etapas de Fase II.

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67 cidades em área endêmica; 7 no Litoral serão feitas ações de porta em porta

O médico e gerente do Programa de Controle a Esquistossomose na Paraíba, Antonio Bernardo Filho, informou que há 67 municípios do litoral, Brejo e Agreste que compõem a área endêmica para a esquistossomose. Neste ano, estão programadas ações em sete cidades do Litoral Norte e Sul de busca ativa de casos de casa em casa. “Esse trabalho de busca ativa de casos soma-se ao já realizado de vigilância através da rede básica de saúde dos municípios. Os demais municípios ao que me referir dos 67 têm uma vigilância voltada através da rede básica para esse agravo”, afirmou, acrescentando que ale das cidades localizadas na área endêmica, há ainda mais quatro situados no semiárido que já teve casos com índice de positividade inferior aos demais municípios. “Eles são classificados como municípios focais”, afirmou.

Esses sete municípios do Litoral, que participarão de ações que contarão com a parceria do Ministério da Saúde (MS) e secretarias estadual e municipais, têm índice superior a 5%. Por conta disso, a recomendação é que se faça um trabalho a mais nesses locais. Serão distribuídos potinhos para coleta do material para análise, através de exames parasitológicos. Se positivo, o tratamento será realizado através da rede básica de saúde com a medicação adequada. Esse remédio é repassado pelo MS para as secretarias estaduais que serão responsáveis de distribuir para os municípios. O médico e gerente do Programa na Paraíba informou que estudos mostram que a doença chegou ao País no período colonial através do tráfico negreiro. “É importante o diagnóstico precoce e tratamento dos positivos porque é uma doença que não tratada e não diagnosticada ela pode evoluir para casos graves e mortes”

Segundo o médico e gerente do programa de Controle da Esquistossomose, Antonio Bernardo Filho, a doença acomete a medula espinhal se apresenta com uma tríade clínica de dor lombar, alteração de força e/ou sensibilidade de membros inferiores e distúrbio urinário e intestinal. É uma forma grave da doença que requer atendimento de urgência e encaminhamento do doente para confirmação diagnóstica e tratamento por neurologista de referência do serviço de saúde municipal.

Lista dos 7 municípios do Litoral para ações

- Lucena;

- Conde;

- Alhandra;

- Caaporã;

- Pitimbu;

- Santa Rita;

- Rio Tinto

“Nós torcemos que logre êxito porque a esquistossomose é uma doença secular. Muito diretamente ligada às questões hídricas. É uma doença cuja população carente tem mais probabilidade de ter a doença” - Antonio Bernardo Filho – médico e gerente do Programa de Controle a Esquistossomose.

Dengue-Const-Civil-reunião-sinduscon-Nilton-Guedes-zoonoses_120116NalvaFigueiredo-01João Pessoa também é área endêmica

João Pessoa é uma área endêmica porque há a presença da biomphalaria, segundo informou o gerente de Vigilância Ambiental e Zoonoses, Nilton Guedes. Explicou que o caramujo é o hospedeiro intermediário que é encontrado em rios e riachos. Destacou que o órgão municipal tem realizado várias ações de orientação, principalmente palestras nas escolas e nas comunidades, sobre como evitar a doença. O contágio só ocorre quando há contato com água contaminada com a biomphalaria, principalmente nos horários mais quentes do dia – das 10h às 16h. Ao apresentarem os sintomas, recomendou que procure uma unidade básica de saúde para a realização de exames clínicos. A própria unidade dá a medicação para tratamento se for detectado positivo.

“Nossos rios hoje, infelizmente estão muito poluídos, não servem mais para banho. Mas alertamos aquelas pessoas a não dar banho em cavalo, a não lavar roupa ou adentrar porque corre o risco de ser infectada” - Nilton Guedes – gerente de Vigilância Ambiental e Zoonoses.

Em números:

- 200 milhões de pessoas infectadas no mundo, conforme a OMS, em especial nos países pobres;

- 70 países estão em áreas endêmicas, pois a doença está atrelada à precariedade de saneamento;

- 800 milhões de pessoas vivem sob risco de infecção, sobretudo na África;

- 19 estados brasileiros apresentam casos, especialmente os da região Nordeste, além de Minas Gerais e Espírito Santo.

Caramujo

- A biomphalaria é aquática e só sobrevive dentro da água;

- O deslocamento dela é através da água e na velocidade da água;

- Transmite a esquistossomose;

Caracol africano

- É o animal pulmonar que sobrevive fora da água

- Tem uma crosta dura e uma lesma que é perceptível quando está andando

- Apesar de não ter nenhum caso confirmado, há suspeita de que pode transmitir a meningite.

Sintomas:

- Pode ser assintomática ou passar despercebida;

- Pode apresentar mal estar;

- Febre;

- Falta de apetite;

- Diarreia muco- sanguinolenta;

- Dor de cabeça;

- Dor abdominal;

- Fígado e/ou baço aumentados;

- Tosse seca

Contato com a doença

De acordo com o médico e gerente do Programa, a esquistossomose ocorre em localidades sem saneamento ou com saneamento básico inadequado. Sendo adquirida através da pele e mucosas, em consequência do contato humano com águas contaminadas com as formas infectantes das larvas do Shistosoma mansoni. A transmissão da doença depende da presença do Homem infectado excretando ovos do verme pelas fezes. Estas carriadas para as águas onde há os caramujos, contaminam estes, com larvas do verme, liberadas do ovo que em contato com a água rompem-se. No caramujo, estas larvas multiplicam- se aos milhares. E de 4 a 7 semanas da infecção do caramujo, este, começa  a liberar novas larvas denominadas de cercárias , nas águas onde encontram-se, utilizadas pelos seres humanos. Fechando desta forma, o ciclo de transmissão da doença.

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